No discurso político é comum assistirmos à manipulação, redefinição ou até esvaziamento do significado original dos termos. Nos últimos anos, temos assistido a uma transformação profunda na retórica e nas prioridades, sobretudo dos partidos de Direita, tanto em Portugal como no resto do mundo.
Sob o apelo de “menos impostos, menos desperdício”, multiplicam-se as promessas de alívio fiscal e de combate à ineficiência do Estado. No entanto, por detrás desta linguagem modernizada e aparentemente sensata, escondem-se consequências concretas: a bandeira “menos impostos” tem servido para justificar cortes significativos no investimento público em áreas essenciais como a saúde e educação, bem como o abandono das políticas públicas de habitação, entre tantas outras. Estas áreas, frequentemente rotuladas como “ineficientes” tornam-se alvos fáceis de cortes orçamentais sob o pretexto de eliminar desperdício, sendo muitas vezes entregues ao setor privado, que vê nestas áreas novas oportunidades de expansão do seu portefólio financeiro, vulgo - ganhar dinheiro, capitalizar. Em paralelo, cresce a pressão internacional, muitas vezes promovida e rapidamente aproveitada pelos mesmos partidos, para um aumento drástico da despesa em defesa. A proposta de aumentar o orçamento da defesa representa uma mudança radical nas prioridades do Estado. Com a receita fiscal limitada ou em queda devido aos cortes de impostos e/ou à implementação de tímidas políticas que aumentaram algum rendimento disponível, a única solução viável para financiar este aumento é, inevitavelmente, sacrificar ainda mais o investimento nas áreas sociais. E não é por recentemente algumas figuras do regime virem sossegar as hostes afirmando que o Estado social é intocável que isso se torna numa realidade. Já sabemos bem o que significa “não é não”.
Costuma dizer-se, com um certo ar de superioridade moral, que já não há Esquerda nem Direita, que “sou do centro”, “sou moderado/a”, como se isso fosse sinónimo de bom senso e equilíbrio. Veja-se as palavras utilizadas na primeira entrevista televisiva dada por um candidato presidencial. Os extremos, disse, nunca são bons. Mas será assim tão inocente esta recusa em assumir um lado? Outros candidatos presidenciais também apostam no rótulo de se intitularem como suprapartidários, como se esse estatuto os elevasse de facto – até no plano moral e ético. De forma semelhante, veja-se como um jornal diário nacional – na sua edição de 17/07/2025 – chama a atenção, na capa do jornal, para um artigo acerca da coligação de esquerda em Lisboa para as próximas eleições autárquicas: “… avança contra ‘radicais’”.
As palavras e os rótulos que usamos nunca são neutros. A escolha de termos como “direita radical” em vez de extrema-direita ou “direita tradicional” ou “liberais” é tão inocente como a escolha da cor da gravata num debate ou entrevista televisiva. Nada é neutro em política, nem sequer a linguagem. O que aparenta ser um simples detalhe sinaliza, na verdade, mudanças profundas — e é fundamental prestar atenção a estas alterações graduais de linguagem e questionar o que está por detrás delas. A Direita decidiu rapidamente apropriar-se de bandeiras que, até há pouco tempo, eram o pão nosso do discurso da extrema-direita. Não será isto um sinal de que o assalto ao poder, que agora tanto temem perder, começou há muito por parte destes partidos, e que a estratégia passa por absorver o discurso dos - populistas – outro rótulo para – fascistas - como solução para a sua própria sobrevivência política? Também não é inocente quando ouvimos a única candidata à liderança do partido liberal dizer que talvez tenham sido “demasiado tecnicistas” durante a última campanha eleitoral e que é preciso “explicar as coisas de forma mais simples”. A simplificação dos argumentos políticos em chavões e frases feitas — que qualquer estudante de marketing ou até poeta saberá recitar de olhos fechados — é apenas mais manobra para camuflar as verdadeiras linhas dos seus projetos políticos. É também curioso, aliás, o uso recorrente da palavra “liberdade”, sobretudo por quem defende um Estado mínimo.
Falar de liberdade é fácil quando não estão em causa as necessidades básicas e os direitos humanos. Mas para quem tem de escolher todos os meses entre ir aviar a receita médica ou comprar uma botija de gás, ou entre comer mais enlatados nesse mês e evitar o peixe para conseguir fazer o pagamento mensal do cartão de crédito ou levar a filha a comprar um novo fato de treino, ou entre construir uma barraca ou viver na rua, a liberdade é um conceito muito mais concreto e limitado.