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Não há filhos de um deus menor

Mais um responsável de um país que ameaça virar o exército contra o seu povo, procurando silenciar reivindicações justas por igualdade, liberdade, justiça e democracia.

Três décadas depois as imagens ainda mexem connosco. O massacre de Tiananmen mostrou a brutalidade de um exército a ser usado contra o seu próprio povo. Milhares de pessoas morreram quando o Exército Popular de Libertação recorreu à força para suprimir os protestos populares pró-democracia (liderados pelos estudantes) e dispersar a multidão. Ano após ano, a máquina de censura chinesa procura silenciar a ocasião, esconder a história, impor o esquecimento, tornar realidade o “buraco da memória” que Orwell ficcionou. Nós não esqueceremos, nem deixaremos cair no esquecimento.

A imagem icónica do homem que enfrenta a coluna de tanques no dia seguinte ao massacre ficou na história. É a demonstração que há ideias que conseguem vencer o medo e que são impossíveis de matar. Essa é a força que chega até hoje.

Nos últimos dias, a pandemia serviu de pretexto para reforço da censura chinesa. A saúde pública em tempos de pandemia foi a justificação para proibir as ações populares em Macau ou Hong Kong, impedindo que as tradicionais velas fossem acendidas. É estranho como um vírus tão pequenino pode ter umas costas tão grandes para arcar com responsabilidades que não são suas. E nas ruas de Hong Kong vemos as forças repressivas novamente na rua para silenciar o povo, para calar as reivindicações de liberdade e democracia. São ideias teimosas que não se deixam ficar, mesmo perante os mais poderosos adversários.

A violência policial conhecida e o número de negros mortos pela polícia nos EUA dão a dimensão formal, não a total realidade, do flagelo racial

A um oceano de distância, as ruas enchem-se com reivindicações de liberdade e democracia e de valores que lhe são inseparáveis como a igualdade e a justiça. Igualdade perante a lei e o Estado, liberdade para viver sem medo, democracia para que todos tenham representação e a capacidade de participação na vida comum, e a justiça que não tenha uma mão forte apenas para alguns.

A morte de George Floyd indignou o mundo. As imagens do assassinato não deixam ninguém indiferente. Mostraram a crueza de um país onde a cor da pele é motivo para se ser morto. A violência policial conhecida e o número de negros mortos pela polícia nos EUA dão a dimensão formal, não a total realidade, do flagelo racial. Esse é bem profundo, tem a marca da segregação, da pobreza, da maioria negra nas prisões e da exclusão social.

O momento que Christian Cooper tornou público não teve o mesmo desfecho trágico, mas ilustra o mesmo racismo estrutural. Cooper estava no Central Park noviorquino e foi importunado por um cão que estava sem a devida trela. Quando confrontou a senhora que passava o cão com a obrigação legal, a situação degenerou. A conversa deixou de ser sobre a trela e passou para a cor da pele de Cooper. Sendo negro, foi imediatamente ameaçado para deixar passar impunemente a situação da trela, senão a senhora chamaria a polícia dizendo-se vítima de um “afro-americano”. A história parece rocambolesca e se Cooper não a tivesse filmado com o telemóvel é possível que muita gente dissesse que é apenas mais um ato de vitimização. Mas não o é, é a dura realidade que existe nos EUA e tem várias matizes em muitas outras partes do mundo, mesmo em Portugal.

Bertolt Brecht escreveu que “do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”. É a realidade da discriminação e violência racial que ficou exposta, são essas as margens que comprimem a vida de milhões. As ruas que se enchem pelos EUA e pelo mundo são a demonstração de quem se levanta para lutar por aqueles valores fundamentais que referi.

A resposta de Trump aos manifestantes foi uma ameaça lapidar: “vou enviar milhares e milhares de soldados fortemente armados, militares e agentes da lei”. Mais um responsável de um país que ameaça virar o exército contra o seu povo, procurando silenciar reivindicações justas por igualdade, liberdade, justiça e democracia. Não passarão, a força dessas ideias continuará a sair à rua e a enfrentar todos os poderosos que as tentam negar. Um dos chamados “pais fundadores” dos EUA, Thomas Jefferson, defendeu que “quando a injustiça se torna lei, a resistência torna-se um dever”. É esse o dever que está a ser cumprido por quem sai à rua contra Trump e diz que todas as vidas importam - #blacklivesmatter.

Artigo publicado no jornal “Público” a 5 de junho de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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