Não escolher é uma escolha

porDaniel Moura Borges

21 de janeiro 2026 - 11:51
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Ao não deixar claro que a segunda volta é sobre a democracia, as direções do PSD, do CDS e a IL estão a dar espaço a que as narrativas dos dois candidatos tenham a mesma legitimidade, e essa posição é inqualificável.

“Deixem-me dar-lhe um abraço”, disse Luís Montenegro na noite eleitoral da primeira volta das presidenciais, ao chegar à sede da noite eleitoral de Marques Mendes. O candidato do Governo bem precisava, teve uma derrota humilhante e terminou em quinto lugar.

Para enquadrar a segunda volta, o primeiro-ministro apresentou António José Seguro como o candidato à esquerda do Partido Social Democrata, e André Ventura como o candidato à sua direita. Acabou a concluir que o PSD não emitirá, por isso, nenhuma indicação de voto. Quis ficar sentado no muro e não tomar nenhuma decisão. E assim, tomou-a. Não escolher é uma escolha.

As narrativas para a segunda volta já estão montadas – ficaram montadas na noite eleitoral. António José Seguro fará campanha como o candidato do campo democrático contra o candidato anti-democrático. André Ventura fará campanha como o candidato anti-sistema contra o “socialismo”. É lamentável que oss partidos de direita validem estas duas posições como iguais.

Vejamos: pouco aproxima a esquerda de António José Seguro. Quem o deixou mais explícito na corrida presidencial foi Catarina Martins. No passado, o ex-líder do PS esteve do lado da direita na imposição dos cortes da troika, no presente tem vergonha de dizer que é de esquerda – de socialista tem pouco. E nada disso importa nesta segunda volta, porque o seu opositor é o político que disse serem necessários três Salazares para “reerguer Portugal”, que queria ser como D. Afonso Henriques contra “os mouros” e que pede uma nova república.

É também o político que aproveitou a notícia de incêndio numa igreja para promover a islamofobia, que disse que filhos de portugueses nascidos na Índia tinham comprado o passaporte no supermercado, que foi condenado por ofender a honra e o bom nome de uma família a que chamou de “bandidos”, e que confundiu um festival de cidadania na Alemanha com um festival de hambúrgueres. O ridículo e a mentira de um candidato destes já devia ser razão para um político com decência tomar posição, mas isso, que Ventura banalizou, já nem é assunto que importe a Luís Montenegro.

Ao não deixar claro que a segunda volta é sobre a democracia, as direções do PSD, do CDS e a IL estão a dar espaço a que as narrativas dos dois candidatos tenham a mesma legitimidade, e essa posição é inqualificável.

É inqualificável do ponto de vista da veracidade, porque a narrativa de Ventura é uma invenção; é inqualificável politicamente, porque permite ao campo da extrema-direita alargar-se e normalizar-se na sociedade, colocando como equivalentes o “socialismo” e a extrema-direita; e é inqualificável do ponto de vista da decência, porque tenta ficar em cima do muro contra o extremismo.

E enquanto estes partidos ficam calados, apesar de algumas figuras que vão tomando posição pela democracia, torna-se cada vez mais claro que André Ventura é o líder da direita portuguesa e conseguirá o que quer: criar uma fratura na sociedade em que ele próprio é um dos polos. Está agora muito próximo de o conseguir.

Daniel Moura Borges
Sobre o/a autor(a)

Daniel Moura Borges

Militante do Bloco de Esquerda.
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