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"Não à energia nuclear”, de Fukushima a Vermont

Fukushima mostra-nos os custos intoleráveis da energia nuclear. Os cidadãos de Vermont mostraram-nos os benefícios de dizer "Não".

Bem-vindos ao renascimento nuclear.

A Entergy Corp., uma das maiores empresas produtoras de energia nuclear nos Estados Unidos, emitiu um comunicado de imprensa surpreendente na passada terça-feira, 27 de agosto, onde afirma que planeia “fechar e desmantelar a sua central nuclear Vermont Yankee em Vernon, Vermont. Prevê-se que a central deixe de gerar energia após o seu ciclo atual de combustível e que se proceda ao seu encerramento seguro em finais de 2014”. Se bem que o comunicado de imprensa provenha da empresa, esta decisão de encerrar a central nuclear é o resultado de anos de protestos populares e de ação a nível do parlamento do Estado. Enquanto os ativistas norte-americanos celebram esta grande derrota da energia nuclear, no Japão, responsáveis oficiais reconheceram que as fugas radioativas provocadas pela catástrofe nuclear na central de Fukushima Daiichi são piores do que tinham admitido.

O consultor e especialista em energia nuclear Arnie Gunderson comentou a respeito do anúncio de Entergy sobre o encerramento previsto da central de Vermont: “Levou três anos, mas a pressão cidadã finalmente conseguiu que o Senado estatal tomasse essa posição”. Gunderson coordenou projetos em 70 centrais nucleares de todo o país e agora dedica-se a dar um depoimento independente sobre a energia nuclear e a radiação. Gunderson explicou como foi que o estado de Vermont, pela primeira vez na história do país, proibiu que a central funcione para além dos 40 anos do prazo inicial autorizado. Entergy tinha solicitado uma prorrogação de 20 anos. “O poder legislativo, numa decisão de 26 votos a favor e 4 contra, disse: “Não. Não vamos outorgar uma prorrogação. Terminou. Um contrato é um contrato. O contrato foi de 40 anos”. Então, Entergy recorreu primeiro ao tribunal federal em Vermont e ganhou, e depois houve recurso para um tribunal de apelações da cidade de Nova York, onde a empresa voltou a ganhar com o argumento de que os estados não têm autoridade para regular assuntos de segurança”. Apesar de ter ganhado a nível judicial, a Entergy cedeu perante a pressão pública.

Em 2011, o Governador de Vermont, Peter Shumlin, que disse que a Entergy era uma “empresa em que não podemos confiar”, afirmou à Democracy Now: “Somos o único estado do país que tomou o poder nas suas próprias mãos e disse que sem o voto afirmativo do poder legislativo, a Junta de Serviços Públicos não pode emitir um certificado de interesse público para que uma central nuclear permaneça em atividade de forma legal durante outros vinte anos. O Senado pronunciou-se. Disse que não, que administrar uma central nuclear velha, que tem fugas, não é a favor do interesse superior de Vermont. E esperamos que se respeite a nossa decisão”.

A indústria da energia nuclear encontra-se numa encruzilhada. O tão elogiado renascimento nuclear está a colapsar, especialmente depois do desastre de Fukushima, o que é exacerbado pela crise financeira mundial. Num recente artigo intitulado “Renaissance in Reverse” (“Renascimento ao contrário”), Mark Cooper, investigador especializado em economia da Faculdade de Direito de Vermont escreveu: “O problema dos velhos reatores nucleares agudizou-se”. Os custos de funcionamento e de reparação destas centrais fez com que os operadores fechem cinco dos 104 reatores de geração de energia nuclear ainda em funcionamento nos Estados Unidos apenas neste ano, pelo que ficam 99 em atividade. Cooper identificou outros 30 reatores que considera que fecharão, porque “a economia dos velhos reatores é muito arriscada”.

As graves consequências do acidente da central nuclear Fukushima Daiichi agudizam-se dia a dia, entretanto nesta semana, a Agência Reguladora de Energia Nuclear de Japão aumentou a sua avaliação da situação para nível 3, ou grave, na Escala Internacional de Eventos nucleares e Radiológicos. O acidente original ocorrido em março de 2011 foi qualificado de nível sete na dita escala, o nível de ameaça mais alto e mais grave. As barras de combustível nuclear da central precisam ser arrefecidas constantemente com água. A água utilizada no resfriamento é extremamente radioativa. A empresa Tóquio Electric Power Co., TEPCO, que administrava a central de Fukushima e que tem sido responsável pela limpeza do desastre, armazenou a água radioativa em tanques de água construídos à pressa, que começaram a ter derrames.

Gundersen disse:

“As investigações na zona determinaram que a radiação proveniente do lugar era cinco vezes maior numa hora do que o que uma pessoa normal poderia suportar num ano. A água radioativa está a derramar da central à mesma velocidade com que entra nos tanques. Diariamente entram entre 400 e 1.000 toneladas de água das montanhas dos arredores de Fukushima para o tanque de arrefecimento da central. O tanque é extremamente radioativo porque a contenção falhou e o material radioativo está a derramar desde o centro nuclear da central para outros edifícios. Isso põe-no em contacto com a água limpa subterrânea e torna-a extremamente radioativa... E a situação está cada vez pior”.

O desastre de Fukushima foi comparado com a catástrofe de Chernobyl, onde uma central nuclear explodiu em 1986 e fez com que a região dos arredores se tornasse inabitável. A radiação que derrama da central de Fukushima está a criar uma crescente onda radioativa no Oceano Pacífico.

Fukushima mostra-nos os custos intoleráveis da energia nuclear. Os cidadãos de Vermont mostraram-nos os benefícios de dizer "Não".

Artigo publicado em “The Guardian” e "Democracy Now" em 29 de agosto de 2013. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Mercedes Camps para espanhol. Tradução para português de Carlos Santos para Esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Co-fundadora da rádio Democracy Now, jornalista norte-americana e escritora.
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