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As Mulheres também não se medem aos palmos

As Mulheres não se medem aos palmos e se a participação das mulheres nos centros de decisão económica e decisão política é deficitária não se deve a uma falta de vontade ou de capacidades, mas sim à desigualdade estrutural que vigora na sociedade portuguesa.

As Mulheres estão a ser um dos 'temas' mais interessantes da campanha para as eleições legislativas que está agora no início. Já assistimos a um discurso bafiento dos líderes da coligação “Portugal à Frente”, que enumeraram a maioria das discriminações que as mulheres portuguesas ainda enfrentam muito pela incapacidade do governo de promover o emprego e assegurar equipamentos públicos de qualidade, que permitam externalizar as tarefas do cuidado como qualidades naturais das mulheres e como se os quarenta anos de liberdade não tivessem permitido às mulheres expressar-se enquanto cidadãs de pleno direito, dentro e fora de casa afastando o mito das fadas do lar.

Mas se as políticas de austeridade do governo e o desemprego consequente, assim como os baixos salários e a insuficiente rede de equipamentos sociais de apoio às famílias, justificam o tempo que as mulheres dedicam ao trabalho não pago, são também as políticas conservadoras do mesmo governo que impedem o progresso social em direção a uma igualdade efetiva entre homens e mulheres. A ausência de políticas que valorizem o emprego das mulheres, a desigualdade salarial e propostas como o emprego a tempo parcial como medidas de fomento à natalidade, perpetuam os estereótipos e desencorajam uma partilha igual do trabalho reprodutivo.

Mas se as políticas do governo faziam prever discursos como aqueles que ouvimos aos candidatos da coligação “Portugal à Frente”, o espanto de alguns comentadores e jornalistas face ao destaque que as mulheres têm nas listas do Bloco de Esquerda é excessivo, se pensarmos por exemplo no desempenho da Catarina Martins enquanto porta-voz do partido, da Mariana Mortágua na Comissão Parlamentar do caso BES, da Cecília Honório nas questões relacionadas com a Convenção de Istambul, da Mariana Aiveca nas questões do trabalho ou da Helena Pinto no combate às alterações à lei do Aborto.

As Mulheres não se medem aos palmos e se a participação das mulheres nos centros de decisão económica e decisão política é deficitária não se deve a uma falta de vontade ou de capacidades mas sim à desigualdade estrutural que ainda vigora na sociedade portuguesa e ao discurso ideológico da direita que não abdica de uma sociedade patriarcal que permita ao capitalismo reinventar-se equilibrando austeridade e conservadorismo de forma a condicionar a liberdade e a cidadania.

No encerramento do jantar comício na Cantina Velha da Universidade de Lisboa, Catarina Martins disse que “no Bloco de Esquerda e na democracia portuguesa, as mulheres vieram para ficar” e ainda bem. Catarina assumiu ainda o compromisso de que a primeira iniciativa parlamentar do Bloco será “fazer a lei do aborto respeitar o sentido do referendo, rasgando a indecorosa lei aprovada à pressa pela direita”. Na sala cheia de homens e mulheres o aplauso foi unânime e a campanha saiu para a rua, combativa e feminista.

Sobre o/a autor(a)

Licenciada em Relações Internacionais. Ativista social. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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