Mulher em tempos de desventura

porPaula Teixeira

03 de fevereiro 2026 - 14:33
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Recuso-me a aceitar que a resposta à crise seja o ódio ou o retrocesso. A nossa luta tem de ser a de explicar que a verdadeira justiça social não se faz contra as minorias ou contra os direitos das mulheres, mas sim com o reforço dos serviços públicos e com políticas de igualdade reais.

Como assistente social há mais de 20 anos, o meu dia a dia tem sido feito em confronto com as crescentes desigualdades na nossa sociedade. Ouço as histórias, reconheço os rostos e vivencio a precariedade para além das estatísticas. Para uma assistente social, o exercício da profissão em 2026 não é, nem pode ser um ato neutro ou meramente burocrático; é, por definição, um ato político e de direitos humanos. No Código de Ética e na prática diária, a assistente social é a primeira linha de defesa contra a exclusão. Sabendo que nem sempre isso acontece, luto para relembrar todos os profissionais dessa responsabilidade perante a sociedade.

Por isso, atualmente, a inquietação não passa só pela falta de recursos, que por si só é uma grande preocupação, mas também pelo crescimento de um discurso de extrema-direita que ameaça deitar por terra décadas de conquistas sociais e feministas.

Vivemos um antagonismo doloroso. Enquanto as mulheres continuam a ser o rosto principal da pobreza em Portugal — sobrecarregadas pelo trabalho não pago de cuidados, pela precariedade laboral e por pensões de miséria — assistimos a um fenómeno alarmante: muitas destas mesmas mulheres, exaustas e desiludidas com um sistema que lhes falhou, estão a ser seduzidas por retóricas que as querem prejudicar.

Quando André Ventura em plena campanha à Presidência da República, fala em "cortar o financiamento a projetos de igualdade de género", o que estão a dizer, na prática, é que o combate à violência doméstica, o apoio a mães solteiras e a luta pela paridade salarial são "caprichos ideológicos". Não são. São mecanismos de sobrevivência. Retirar financiamento à igualdade é condenar a mulher a voltar para a esfera do silêncio e da dependência.

Para o serviço social, isto significa que o apoio que era profissional e técnico passa a ser feito de forma amadora e exaustiva pelas mulheres da família. Em 2026, com o envelhecimento demográfico acentuado, esta pressão é uma bomba-relógio social.

A estratégia da extrema-direita é perversa: utiliza o medo e a insegurança económica para vender um regresso a um passado "ordeiro", onde a mulher tinha um papel submisso e o Estado se desresponsabilizava do bem-estar social. É um Cavalo de Troia. Prometem proteção, mas entregam a retirada de direitos. Prometem autoridade, mas o que trazem é o isolamento das mais vulneráveis.

Como assistente social, recuso-me a aceitar que a resposta à crise seja o ódio ou o retrocesso. A nossa luta tem de ser a de explicar que a verdadeira justiça social não se faz contra as minorias ou contra os direitos das mulheres, mas sim com o reforço dos serviços públicos e com políticas de igualdade reais.

Precisamos de resgatar estas mulheres da armadilha do populismo. Precisamos de lhes dizer que o projeto político que hoje lhes oferece um "culpado" (o imigrante, a feminista, o subsídio-dependente) é o mesmo que, amanhã, lhes retirará a voz, a autonomia e a dignidade.

O discurso populista em 2026 frequentemente defende que a mulher deve ter a "liberdade" de ficar em casa a cuidar da família. No entanto, como assistente social, sei que sem serviços públicos acessíveis, essa não é uma escolha, é uma imposição. Quando o Estado se retira, a mulher é empurrada para fora do mercado de trabalho para preencher o vazio deixado pela falta de lares ou infantários.

A proposta de retirar financiamento a projetos de igualdade de género ignora que estes projetos muitas vezes combatem a exclusão financeira. Ao "devolver" a mulher ao lar e consequentemente a perda de autonomia, com o regresso à dependência financeira do parceiro ou de subsídios precários aumenta a vulnerabilidade perante situações de violência doméstica e também perpetua a pobreza da mulher na velhice, com menos anos de descontos resultam em pensões de reforma miseráveis, perpetuando o ciclo de pobreza feminina que já é crítico em Portugal no início de 2026.

O que a extrema-direita quer é que o cuidado regresse à esfera privada (dentro de casa), onde é invisível e gratuito. E o que temos de defender é o "Cuidar com Direitos", que significa transferir essa responsabilidade para a esfera pública.

Assim, o que se deve reivindicar é um Serviço Nacional de Cuidados, pois, o cuidado só tem direitos quando existem serviços públicos acessíveis a todos, retirando o fardo exclusivo da família. Defender o reforço do estatuto do cuidador informal, para garantir descanso, descontos para a reforma e apoio psicológico e a redução da jornada de trabalho, para que o tempo de cuidar seja distribuído equitativamente entre homens e mulheres, sem perda de rendimento.

A igualdade não é um acessório político, é a base de uma democracia digna. E não podemos permitir dar nem um passo atrás.

Paula Teixeira
Sobre o/a autor(a)

Paula Teixeira

Assistente Social, Mestranda em Serviço Social no ISCTE.
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