Mudar o clima para evitar a mudança do clima

porRicardo Coelho

16 de julho 2011 - 1:44
PARTILHAR

Não prevendo qualquer papel para a mudança de estrutura produtiva ou de comportamentos, os editores do Economist defendem que a única saída da crise climática é o investimento em experiências próprias de cientistas loucos com o objectivo de moldar o clima à medida das nossas necessidades.

Tive recentemente o prazer de ler o Economist. Escrevo prazer sem ironia, porque é realmente delicioso ver o tipo de argumentação que é usada numa revista tão central na produção de teoria neoliberal. Mas o que me chamou a atenção na revista foi o facto de os editores terem decidido dedicar um número ao Antropoceno, conceito que designa a nova era geológica marcada pela alteração de ciclos naturais pela humanidade. Que uma revista conservadora dedique um número a um conceito tão polémico quanto este pareceu-me estranho. Mas o editorial mostrou claramente quais eram as intenções da publicação.

No editorial, defende-se a ideia, cada vez mais consensual entre geólogos, que as actividades humanas têm um impacto tão profundo no planeta que se pode dizer que ao Holoceno se seguiu o Antropoceno. A data em que a nova era começou é ainda alvo de debate, mas é seguro dizer que pelo menos desde o início da segunda revolução industrial que podemos encontrar um nível de intervenção na natureza que não tem paralelo com o de qualquer outro ser vivo que alguma vez tenha pisado o planeta. As consequências estão à vista com a crise ecológica, da qual as alterações climáticas são a face mais evidente e mediática.

Toda esta evidência é aceite pelo Economist. Mas depois vem a surpresa, quando o editorial menciona a solução para as alterações climáticas: a geoengenharia. Não prevendo qualquer papel para a mudança de estrutura produtiva ou de comportamentos, os editores defendem que a única saída da crise climática é o investimento em experiências próprias de cientistas loucos com o objectivo de moldar o clima à medida das nossas necessidades. A ironia de estarem a defender uma intervenção massiva no clima para contrabalançar outra intervenção, por outro lado, parece ter-lhes escapado.

A ideia de podermos determinar variáveis como a temperatura ou a pluviosidade poderia parecer ficção científica ainda no século XX mas recentemente passou para o domínio da política quando as consequências das alterações climáticas se tornaram evidentes. Surgiram então vários projectos de geoengenharia, usualmente direccionados para reduzir a quantidade de radiação solar que atinge a terra.

Um exemplo é a proposta de Paul Crutzen, o químico que ganhou o respectivo Nobel por ter participado na equipa que descobriu o buraco do ozono. A ideia, não totalmente inovadora, é injectar na estratosfera grandes quantidades de dióxido de enxofre, de forma a formar nuvens de partículas que reflictam a luz solar. O efeito seria semelhante ao da erupção de um grande vulcão.

Além da questão óbvia de não sabermos quais as potenciais consequências ambientais de enviar grandes quantidades do poluente responsável pelas chuvas ácidas para a estratosfera, este esquema pode falhar porque os gases com efeito de estufa aquecem a terra dia e noite, durante o verão e o inverno. Em contraste, as nuvens de partículas de enxofre apenas reflectiriam a radiação solar apenas quando o sol brilhasse, não tendo qualquer efeito durante a noite ou durante os invernos polares. Por outro lado, os efeitos deste tipo de experiência nos padrões de precipitação e de ventos não são de todo claros.

Um problema mais grave é o da camada do ozono. A destruição da camada do ozono processa-se rapidamente quando a temperatura da estratosfera é baixa. Sabe-se actualmente que, paradoxalmente, o aquecimento global leva a uma redução da temperatura média na estratosfera, conduzindo a uma maior destruição de ozono. A injecção de partículas de enxofre irá acelerar este processo, atrasando em décadas a recuperação da camada do ozono. Como consequência, a radiação ultra-violeta que atinge a terra, particularmente nos pólos, será maior, aumentando a incidência de cancros de pele.

Outra ideia muito em voga actualmente é a de criar uma frota de navios que percorreriam os nossos mares, expelindo para a atmosfera grandes quantidades de água do mar. Desta forma, consegue-se ter nuvens mais brancas o que, espera-se, permitirá um aumento da reflectividade da terra. Se tudo correr bem, podemos resolver o problema do aquecimento global com 1500 navios pilotados por computador. Ou não.

A climatologia sabe ainda relativamente pouco sobre o efeito que as nuvens têm no clima global, pelo que este projecto é (mais) um tiro no escuro. Não se sabe exactamente qual a reflectividade que estas nuvens criadas artificialmente terão nem como se distribuirão pelo planeta. Podemos assim acabar por ter um mosaico de temperaturas, com partes do planeta a aquecer mais rapidamente que outras.

Outros projectos há ainda mais megalómanos, tais como os de enviar triliões de espelhos para o espaço para reflectir a luz solar , mas estes dois exemplos já dão uma ideia de o que está em jogo.

Todos estes projectos falham em grande parte o alvo porque não prevêem a necessária redução no consumo de combustíveis fósseis, tentando, pelo contrário, encontrar uma forma de prolongar o tempo de vida do produtivismo que nos levou a esta crise climática.

Não há palavras para descrever a enorme estupidez que seria condicionar o destino do planeta ao funcionamento de projectos tecnológicos cujas consequências são imprevisíveis. O risco de estes esquemas de manipulação do clima falharem e ficarmos com um mundo inabitável é real e deveria ser suficiente para que discutíssemos reais soluções para a crise climática, em vez de estarmos a pensar em formas de adiar a necessária transição para uma sociedade baseada na utilização de fontes de energia renováveis e no consumo racional e eficiente de energia. O Economist não quer ter este debate, como é de esperar, pelo que teremos de ser nós a fazê-lo.

Ricardo Coelho
Sobre o/a autor(a)

Ricardo Coelho

Ricardo Coelho, economista, especializado em Economia Ecológica
Termos relacionados: