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A miopia dos interesses!

Milhares, milhões – de turistas, de empresas, de camas, de euros - fluem para os Açores. Ora ainda bem! Mas a pergunta que se impõe é esta: - para onde vão estes milhões?!

Pela voz do líder parlamentar do Partido Socialista [na Assembleia Regional dos Açores], ficámos a saber que a bancada do PS vai fazer uma Interpelação ao Governo sobre Turismo.

Até aqui, tudo bem. Qualquer Partido, no quadro das normas regimentais, tem o direito de fazer as interpelações que muito bem entender. Mas o que é verdadeiramente interessante, neste caso, é a justificação dada para tal iniciativa.

Diz o líder parlamentar do PS que ela visa dar relevo ao que corre bem, na Região, ao mesmo tempo que acusa os partidos da oposição de só fazerem interpelações ao que, por cá, corre mal ou menos bem.

Ora, com esta justificação, ficamos a saber que o Grupo Parlamentar do PS pretende rivalizar com o GACS! Aparentemente, este gabinete governamental - que nos custa meio milhão de euros, todos os anos, para fazer propaganda do/ao governo – não estará lá muito bem visto pelo Grupo Parlamentar do PS. Daí que este, à falta de melhor, decida agora rivalizar com tão famigerado gabinete.

Então, vejamos: - O Turismo corre bem! O número de turistas cresce a olhos vistos! As empresas do setor têm aumentado! Os valores, em euros, por cama têm aumentado! Os apoios governamentais a este sector disparam! E, por arrasto, o desemprego tem diminuído!

Eta! Aí está o melhor dos mundos, mesmo debaixo dos nossos olhos…

Milhares, milhões – de turistas, de empresas, de camas, de euros - fluem para os Açores.

Ora ainda bem! Mas a pergunta que se impõe é esta: - para onde vão estes milhões?!

Ainda há poucos dias, a Cáritas Diocesana clamava pela urgência de criar emprego estável, como condição sine qua non para combater a gravíssima pobreza que grassa na Região - tal como no resto do país.

Segundo dados do Eurostat (Agência Europeia de Estatísticas), desde 2012, em cada 5 empregos criados, 4 são temporários e, sobretudo, mal pagos. Na União Europeia, 45% dos empregados, com menos de 25 anos, têm contratos temporários.

Em Portugal, de acordo com o Livro Verde das relações laborais, de 2016, a percentagem dos temporários, até 25 anos de idade, é de 67,5% e, segundo o Fundo de Compensação do Trabalho, desde 2014, os contratos temporários são 4 em cada 5 novos contratos.

Será que a interpelação anunciada pelo PS visa a negação destes números, através de malabarismos contabilísticos e estatísticos que só os “génios” conseguem alcançar? Será que vamos ser confrontados/as com dados que desmentem o facto inegável de, nos Açores, a realidade superar as médias europeias? Será?!

É que todos/as sabemos como, no setor turístico regional, o máximo a que a generalidade dos/as trabalhadores/as podem almejar é ganhar o salário mínimo e, muitos/as deles/as…nem isso!

Dar-se-á o caso do Governo Regional vir anunciar medidas de combate eficaz a esta desgraçada vida, em particular, da população mais jovem?

É que, ao invés, os empresários do turismo são bafejados com apoios públicos que correspondem, muitas vezes, à totalidade ou quase dos seus investimentos. E até, em muitos casos que vêm a público, parece haver um empolamento artificial dos valores investidos, para que o valor dos apoios públicos seja, artificialmente, majorado.

Então, mais uma pergunta se impõe: - sendo o turismo fortemente apoiado pelo dinheiro de todos/as nós, não seria correcto e justo que a sociedade exigisse destes empresários que, no mínimo, fossem obrigados a ter, nos seus quadros, 75% de contratos permanentes, como o Bloco de Esquerda Açores defende?

Será desta, Senhor Presidente?

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, desde outubro de 2008.
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