Menopausa: quando deixar de poder parir filhos ao país, a minha saúde já não é digna de apoio público?

porPaula Cosme Pinto

18 de outubro 2024 - 15:52
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As mulheres portuguesas têm hoje uma esperança média de vida que ultrapassa os 80 anos. Esta maior longevidade tem de ser acompanhada por maior qualidade de vida. E há claramente um menosprezo pela qualidade de vida feminina, afetando inevitavelmente não só a nossa saúde, mas também a nossa dignidade.

Em 2024, as mulheres em Portugal continuam a não ter acesso a informação pública credível sobre a menopausa, nem tampouco direito a planeamento concertado, consultas médicas especializadas ou acesso gratuito a terapêuticas referentes a este período. Quando sabemos que metade da população do nosso país ou já está a passar pelo processo da menopausa, ou, se tudo correr bem, irá passar por ele, este menosprezo por uma fase tão crucial das nossas vidas é, no mínimo, grotesco. A menopausa não é uma escolha, é uma inevitabilidade. Mas enquanto sociedade, continuamos a olhar para ela ora como um tabu, ora como um simples capricho, ora como um problema que apenas diz respeito às mulheres, como sendo algo que têm de resolver sozinhas. Não é.

A partir do momento em que as mulheres deixam de poder parir filhos à nação, o bem-estar da sua saúde sexual e reprodutiva deixa de ser uma prioridade, e passa a ser tida como um inconveniente descartável, que não merece o investimento dos cofres do Estado. No mesmo mês em que assinala o Dia Mundial da Menopausa, assistimos precisamente a isto, ao ser reprovado um projeto de lei que visava promover a dignidade, a literacia, o combate aos estigmas, o planeamento atempado e a garantia de acesso gratuito a cuidados médicos, tratamentos, exames, medicação e suplementos das mulheres e restantes pessoas em processo de menopausa. Um projeto de lei realista, adequado à fase de "partir pedra" em ainda estamos nesta temática em Portugal. Mas que, contudo, foi rejeitado em Parlamento com uma abstenção incompreensível de PS e IL, além de votos contra do PSD e CDS - que aparentemente até são muito pró-vida, desde que não seja a vida das mulheres. Será?

Porque rejeita o Parlamento uma proposta como esta? Estamos a falar da implementação básica de medidas que asseguravam que a vivência plena, empoderada e saudável daquele que pode ser mais de um terço da nossa existência, não seja apenas uma questão de privilégio económico, mas sim um direito para todas, previsto na lei. Que mais nenhuma mulher tenha de passar pelo vazio gritante de informação pública que não esteja elencada à tentativa de venda de produtos e serviços do sector privado. Que mais nenhuma pessoa em processo de menopausa tenha de entrar no complexo labirinto da falta de resposta médica especializada, com sintomas ignorados em contexto de consultório durante anos a fio, dependentes de terem a sorte ou não de encontrar profissionais de saúde comprometidos e informados com este tema – e com tempo efetivo para fazerem a avaliação devida e atempada, ao invés de serem meramente reativos na resposta, que chega invariavelmente de forma tardia, quando o sofrimento já está totalmente instalado.

A quem serve que metade da população deste país não esteja dotada destas ferramentas essenciais quanto ao que se passa nos seus corpos e nas suas vidas? A quem serve que, como mostram as estatísticas, as mulheres simplesmente sejam obrigadas a habituarem-se a viver com dores e desconforto?

Informação é poder, é dignidade, é liberdade

Sejamos estratégicos quando pensamos em literacia de corpo: a informação não pode chegar apenas numa fase tardia da vida, deve começar desde tenra idade. Não só para meninas, também para meninos. Não se pode optar por falar de saúde sexual e reprodutiva em contexto escolar sem abordar a menopausa. É urgente quebrar mitos e estereótipos, munir os futuros homens e mulheres de informação e formação para que vivam de forma informada todas as fases das suas próprias vidas reprodutivas. A informação tem o condão de normalizar narrativas, de quebrar tabus. E este é mais um que tem de ser quebrado.

A menopausa comporta ainda uma penalização social fortíssima. É um rótulo de suposto ‘fim de prazo’ para as mulheres, associado ao do envelhecimento – que no feminino é encarado como um prejuízo. Como se fosse o anúncio do fim da mulher enquanto ser reprodutivo, sexual e sexualizável. Uma grande falácia, carregada de estereótipos, como tantas outras, que provocam uma total sobrecarga mental, culpa, insegurança e baixa de autoestima à larga maioria das mulheres. Algo que afeta inequivocamente a sua capacidade de se sentirem válidas, e inerentemente a sua participação ativa nas várias dimensões da sociedade. Em suma, leva-as amiúde a viverem esta fase da vida em silêncio.

Importa frisar que se chega hoje à menopausa de uma forma muito distinta. Muitas com filhos pequenos ainda, amiúde a acumularem também o papel de cuidadoras dos próprios pais e avós, e num malabarismo inglório com o pico da carreira profissional. Ter informação válida acessível, poder planear, obter resposta médica concertada, de forma a garantir o bem-estar físico, psicológico e emocional nesta fase tão crítica das nossas vidas é essencial. De todas as mulheres, e não apenas das que podem pagar.

A mulheres portuguesas têm hoje uma esperança média de vida que ultrapassa os 80 anos. Esta maior longevidade tem de ser acompanhada por maior qualidade de vida. E há claramente um menosprezo pela qualidade de vida feminina, afetando inevitavelmente não só a nossa saúde, mas também a nossa dignidade. A somar a tantas outras, esta é mais uma forma de desigualdade vivida de forma desproporcional pelas mulheres no nosso país. E isso não é aceitável. Não pode, nem tem de continuar a ser considerado aceitável.

Paula Cosme Pinto
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