Acabei de sair de internamento hospitalar.
Quando se passa um bom par de dias internado, ou – presumo – preso, ou numa campanha, seja na guerra, seja na pesca do bacalhau, pode acontecer que uma pessoa mude o chip.
Se se der o caso de, no intervalo de uma ressonância magnética e de uma punção lombar, não tiver de resolver os assuntos que não consegue deixar para trás, ao menos, livra-se do lufa-lufa diário e das correrias – no sentido literal do termo – atrás das coisas da vida.
Assim sendo, é natural que surja uma boa oportunidade para melhor conhecer os outros e, sobretudo, para melhor se conhecer a si próprio.
De um quarto das senhoras costumava sair uma rapariga que, sem destino, passarinhava no corredor. Por vezes, soltava um “aaaaiiii” sofrido, seguido de choro, porque a avó não ia visitá-la naquele dia ou porque as/os enfermeiras/os lhe negavam, pela enésima vez – e compreensivelmente, após dois ou três telefonemas efetivamente realizados pelos profissionais de saúde –, mais um telefonema que, com o gesto da mão, manifestava querer fazer para a avó.
A rapariga assomava à porta do meu quarto – que era também do meu vizinho enfermo – para dizer adeus. Seguia-se o sinal com o polegar para expressar que estava tudo ok... Pela face parada, totalmente inexpressiva, nunca consegui perceber se era essa a mensagem, se era para desejar-nos que estivesse tudo ok connosco. Talvez as duas mensagens, simultaneamente...
Inicialmente, pensei cá com os meus botões: “Eh pá, onde eu estou metido! Isto há cá cada um/a, com cada pancada!”
Naturalmente, a rapariga faria o mesmo junto das portas de todos os quartos, pelo menos, na do nosso, uma vintena de vezes em cada dia.
O meu companheiro de quarto perguntou-lhe como se chamava. A rapariga deu dois ou três passos em direção à cama dele. Estendeu-lhe o braço, para que pudesse ler o nome na pulseira plastificada, colocada pelo hospital. “Felícia,... bonito nome”, disse-lhe o meu vizinho, após o que a rapariga virou costas, para mais uma volta no corredor.
“Uma moça tão nova!... e bonita!...” comentou o meu companheiro de quarto. Após este comentário magoado e a minha reação facial, prevaleceram os silêncios. Ficámos comovidos.
À hora do telejornal, a abertura com a tragédia na Palestina decretava o fim da guerra na Ucrânia... e de todas as outras guerras, presumo. Como provam as presentes linhas, confesso que não me isento do papel de decretador.
Chocante a ação do Hamas,... não obstante a prova bárbara e intragável de que só com muito sangue alheio... e próprio se pode alertar o mundo para as injustiças, através de telejornais que incomodam.
Os pivôs e comentadores apressaram-se a apelidar o ato, e bem, de terrorismo.
Como se sabe, quem mata aleatoriamente um inocente com uma faca, ou dez inocentes com uma bomba, é, justamente, classificado de terrorista. Como também é sabido, quem o mesmo faz, há décadas, a centuplicar no número de vítimas inocentes, com recurso a aviões e poderosas armas de onde saem mísseis reluzentes e certificados, com número de série, está a fazer História, quiçá, no cumprimento de um alegado mandato divino.
Foi a contragosto e com raiva que me vi obrigado a concordar, em parte, por uma vez, com a hipócrita narrativa de Putin sobre o problema do Médio-Oriente.
Fazendo por ignorar ao que vêm os comentadores da nossa praça, com posições diversas, numa gama de sensibilidades cujos extremos são ocupados pelos cegamente a favor ou contra os EUA, constatei que, curiosamente, de um modo geral, os ditos comentadores terão aparentemente trocado de lado.
Uns, ao arrepio do que defendem noutras guerras, defendem a resistência palestiniana e passaram a dar, justamente, ênfase aos direitos humanos. Os outros, que costumam insurgir-se contra as violações da Carta das Nações Unidas, parecem esquecer-se do flagrante incumprimento por parte de Israel, que, desde há setenta e cinco anos, vem roubando a terra alheia, num verdadeiro genocídio prolongado no tempo, com o ámen dos EUA e satélites.
“Isto, o mundo está uma desgraça!”, foi o pouco mais do que silêncio que trocámos eu e o meu companheiro de quarto.
A rapariga do adeus veio cumprir mais uma ronda.
Perto do fim da minha estadia no hospital, ganhei confiança suficiente para lhe perguntar quantos anos tinha e outras curiosidades, digamos, mexeriqueiras.
Apesar da tremenda dificuldade da Felícia em expressar-se, pude concluir:
Da menina que, paradoxalmente, se chama Felícia: vinte anos, aluna do oitavo ano, casada, um filho de seis anos, marido numa outra cidade longe, órfã de pais há muito, vive, ou melhor, vivia com a avó.
Eu ia ter alta. Eu e a minha mulher estávamos felizes por isso.
Despedimo-nos de todo o pessoal do SNS que estava de serviço, com um profundo agradecimento pelo excelente trabalho que tinham feito em prol da minha saúde e da das/dos outras/os, e pela forma como tinha sido tratado.
Despedimo-nos da Felícia, com sinceros votos de recuperação.
Eu e a minha mulher conseguimos roubar-lhe um sorriso – enviesado, certo... – à conta do abraço que lhe demos.
Ficámos felizes por isso.
Enquanto percorríamos o corredor no sentido da saída, murmurei bem para dentro de mim: “Este mundo é uma desgraça!”