Max e Lurdes: a memória não se apaga

porJosé Castro

20 de maio 2026 - 14:05
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Hoje quando estamos confrontados com o crescimento da extrema direita que difundem a divisão e a violência é importante lembrar que há 50 anos as organizações terroristas como o ELP, MDLP e Codecos lançavam a destruição e a morte no Porto e noutras regiões do país.

Há pouco mais de 50 anos, na madrugada de 2 de abril de 1976, na Cumieira, às portas de Vila  Real, rebentava uma bomba na viatura Simca 1000 onde seguiam o Padre Max e Maria de Lurdes.

A explosão foi minuciosamente preparada. O dispositivo elétrico de deflagração da potente bomba foi accionado perto da meia noite para matar o padre Maximino de Sousa e a Maria de Lurdes.

Horas depois, na assembleia constituinte seria aprovada a Constituição da República, saída do 25 de abril de 1974 e das lutas operárias e populares que se seguiram. E as eleições legislativas realizadas poucos dias depois, em 25 de Abril de 1976, já não puderam contar com a participação do Padre Max como candidato independente nas listas da UDP às primeiras  eleições para a Assembleia da República.

“Uma voz silenciada à bomba” titulava o Jornal de Notícias anos depois, em 2006: a noite em que um padre de 32 anos, professor no liceu, amado pelos que o rodeavam foi silenciado por esse estrondo, ao quilómetro 71,6 da EN2 que ligava a Vila Real. A brutal explosão ceifara também a vida de Maria de Lurdes, 18 anos, estudante, filha de gente amiga dos tempos da emigração de Max na França.

“Padre Max-assassinos à solta”, alguém escreveu nas paredes da Cumieira, em cuja Casa da  Cultura era feita alfabetização pelo padre Max. Assim foi. Não houve da parte do Estado português (englobando nesta expressão magistraturas, polícias e governo) a vontade firme e  consequente de levar a investigação até ao fim, como escreveu um magistrado diretor da Revista do Ministério Público. Não houve vontade investigatória, antes o total abandono das diligências primárias de recolha dos indícios materiais deixados no local do crime.

Não se investigou tudo o que devia ser investigado porque alguns poderosos não quiseram que se investigasse. Apesar da coragem cívica e empenhamento corajoso e persistente do advogado Mário Brochado Coelho nos mais de 20 anos que durou o processo judicial, não foi feita justiça. Um crime sórdido, hediondo e cobarde como escreveu nas alegações para o Tribunal da Relação do Porto. Só vinte anos depois dos brutais assassinatos, na terceira vez  que o Tribunal da Relação do Porto se pronunciou pelo prosseguimento do processo, é que foi decidido efetuar o julgamento de 4 arguidos como autores materiais de dois crimes de homicídio voluntário agravado.

Na linguagem fria das decisões judiciais pode ler-se na sentença proferida em 22 de  Fevereiro de 1999, que o Tribunal de Círculo de Vila Real considerou provado que os 4 operacionais levados a julgamento pertenceram ao MDLP organização de extrema-direita de  que foram fundadores e chefes máximos António de Spínola e Alpoim Calvão. O auto intitulado Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP) “visava o derrube  através da luta política e armada, do governo e demais instituições políticas emergentes da Revolução do 25 de Abril de 1974 e impedir pelos mesmos meios o acesso ao poder político por parte das pessoas e partidos políticos que se reivindicavam como ideologicamente de esquerda”.

A sentença considerou também provado que na noite de 2 de abril de 1976 no automóvel Simca 1000 conduzido pelo padre Maximino e com a estudante Maria de Lurdes Correia no banco da frente direito ocorreu uma explosão que causou como consequência direta e necessária a sua morte. Tal não se deveu a mero acaso ou acidente antes foi resultado desejado e premeditado.

Apesar dos fortíssimos indícios constantes do processo sobre quem matou, como matou e a mando de quem, o tribunal considerou a prova testemunhal, mais de 20 anos após o hediondo atentado, insuficiente para uma condenação.

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Hoje quando estamos confrontados com o crescimento da extrema direita que difundem a divisão e a violência é importante lembrar que há 50 anos as organizações terroristas como o ELP, MDLP e Codecos (Comandos de Defesa da Civilização Ocidental) lançavam a destruição e a morte no Porto e noutras regiões do país.

O MDLP, criado após o 11 de março de 1975 dispunha de um sector chamado “Ramo de Acção  Interna” ao qual pertenciam os 4 réus.

Financiadas por empresários com ligações à exploração das colónias, ex-Pides e defensores do regime fascista de Salazar e Caetano, organizaram após o 11 de Março de 1975 mais de 300 ações, atentados bombistas, incêndios e assaltos a sedes de organizações e partidos de esquerda.

As diligências de investigação levaram à descoberta duma vasta rede de indivíduos, cuja  atuação se inseria nos objetivos definidos pelo MDLP e outras organizações de extrema direita em que se integravam.

O libelo acusatório do outro processo da rede bombista , o que começou a ser julgado no 5º Tribunal Militar Territorial de Lisboa a partir de 16/11/1977 ajuda a entender toda a trama da rede bombista e suas implicações.

Com armamento, munições e explosivos fornecidos pelo então comandante da PSP do Porto ou obtidos no estrangeiro e trazidos para Portugal através da fronteira com a Espanha  franquista, os principais operacionais da rede bombista espalharam o medo, a destruição e a morte no país, tentando destruir o Portugal pós 25 de abril numa onda de violência. Entre as  muitas ações terroristas, salientam-se:

No Porto, em 21/10/1975 lançaram um engenho explosivo contra a livraria Avante na rua de  Aviz. Em 25/10/1975 deflagraram outros engenhos contra a Tipografia Inova, na rua Gonçalo Cristóvão. Em 7/11/75 foram lançados 2 engenhos explosivos contra o Radio Clube Português na rua Tenente Valadim. Ainda em novembro de 1975 foram colocadas bombas que destruiram 7 automóveis. Em 4/12/75 mais um engenho explosivo contra a Coop. de Produção CoopMaq.

E após o 25 de novembro de 75 (tantas vezes apresentado como a “consolidação da democracia”) prosseguiram os atentados contra a cultura, sindicatos, partidos e pessoas de  esquerda.

Em 7/1/1976 foi destruída por bombas a cooperativa Árvore no Porto. Na semana seguinte rebentou mais um engenho explosivo, nas instalações do SAAL Norte na rua de Gonçalo  Cristóvão. Ainda em Janeiro de 76 mais uma bomba na residência do padre de Aver o Mar na Póvoa de  Varzim. Em 29/1/1976 em Braga o Sindicato da Construção Civil e a sede da UDP foram alvo de bombas.

Em 22/3/1976 outro engenho explosivo deflagrou na porta da Faculdade de Economia do Porto.

E após o assassinato do Padre Mas e Maria de Lurdes em 2 de Abril de 1976, a rede bombista também atuou no sul do país, fez explodir engenhos na embaixada de Cuba em Lisboa, causando dois mortos.

Em 1 de maio de 1976 o rebentamento de 20 quilos de trotil colocado numa viatura na Av. da  Liberdade próximo à sede do PCP em Lisboa causou a morte dum jovem que passava no local.

Em 21/5/1976 em Arnozelo S Martinho do Campo 3 bombistas provocaram o rebentamento de um engenho explosivo na residência de António Ribeiro Teixeira, causando a morte de Rosinda Teixeira e ferimentos graves nos familiares.

Para além de bombas na Livraria António Sérgio na Póvoa de Varzim e em 4 torres de transporte de energia elétrica, só em Abril e Maio de 1976 foram mortas 6 pessoas em  atentados da rede bombista da extrema direita.

Mário Brochado Coelho, advogado incansável para que fosse feita justiça quanto aos  assassinatos do Padre Max e Maria de Lurdes e que hoje aqui queremos lembrar pela coragem cívica na luta pela democracia e contra o regime fascista, escreveu nas alegações para o Tribunal da Relação do Porto: um crime sórdido, hediondo e essencialmente cobarde. Com toda a razão.

Na audiência nº 38 do julgamento da rede bombista no 5º Juízo do TMT de Lisboa, um inspetor da PJ repetiu em audiência as declarações prestadas por um dos arguidos entretanto detidos de que a rede se preparava para colocar bombas na ponte sobre o Tejo, nas igrejas do Norte e em Fátima no dia 13 de Maio de 1976 de forma a comprometer nos atentados os comunistas.

Os crimes ficaram sem castigo, mas quem sabe o que foi o 25 de Abril de 1974 lembrará para  sempre as vidas que foram destruídas pelas bombas da extrema-direita.

Nos dias sombrios para a democracia em que hoje vivemos, o Padre Max e Maria de Lurdes pelo seu exemplo de vida e combate pelo democracia e progresso e Mário Brochado Coelho e outros advogados pela luta contra o fascismo e a repressão, são figuras inspiradoras para os combates que todos os dias temos que fazer.

Não desistiremos de fazer florir as vossas sementes.

Intervenção na Sessão de Homenagem nos 50 anos do assassinato do Padre Max e de Maria de Lurdes, organizada pelo Bloco de Esquerda (Porto, 16.5.26)

José Castro
Sobre o/a autor(a)

José Castro

Jurista, pós-graduado em Planeamento Urbano e Regional
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