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Mata do Bussaco: crónica do abandono

A Mata do Bussaco, um museu natural ao ar livre sem par na Europa, reúne as condições para ser um polo de turismo, lazer e educação ambiental. A Câmara da Mealhada é culpada de a ter deixado em coma, o governo de Passos e Portas é culpado de ter dado um golpe potencialmente fatal.

No Luso, terra de águas termais, encontra-se uma das maiores riquezas naturais do país. A Mata do Bussaco, um museu natural ao ar livre sem par na Europa, reúne as condições para ser um polo de turismo, lazer e educação ambiental a nível nacional e até internacional. Mas quem a quiser visitar irá deparar-se com um cenário de abandono, responsabilidade de uma autarquia mais interessada em inventar cargos para os membros do seu executivo que em valorizar os recursos naturais da região. Foi contra este tipo de governação que o Bloco de Esquerda apresentou a sua candidatura à Câmara Municipal da Mealhada.

Desde que, em 1630, foi criado o Convento de Santa Cruz que a Mata do Bussaco se foi tornando num jardim botânico sem paralelo no país. Os monges, além de criarem os muros e caminhos, plantaram árvores de várias espécies, um trabalho que foi continuado ao longo dos séculos, mesmo depois de, em 1838, a mata ter passado para o Estado. Em 1888 estavam já inventariadas 400 espécies vegetais autóctones, assim como 300 espécies exóticas. Hoje, a mata é um espaço onde se podem observar espécies vegetais de todo o mundo, o que oferece uma oportunidade para a educação ambiental única.

Também a nível de espécies animais a Mata do Bussaco é única. Investigações realizadas pela Universidade de Aveiro contabilizaram já mais de 150 espécies de animais vertebrados, algumas das quais em risco de extinção. Recentemente, um comunicado anunciou a descoberta de mais duas espécies: “o morcego-de-ferradura-mediterrânico, uma espécie em vias de extinção, e ainda o musaranho-de-água, um mamífero sobre o qual existe muito pouca informação”.1

Se o Conde de Contarr, da Rua de Sésamo, visitasse a Mata do Bussaco para contar morcegos (ou “morrcegalos”, no seu dialeto), sentir-se-ia no paraíso. Das 25 espécies de morcegos presentes no país, 15 já foram encontradas na mata. Mas o pobre conde não teria tanta sorte se tivesse que contar as informações para turistas e visitantes.

Quem entrar na Mata do Bussaco terá de pagar não tem forma de saber o que está a visitar nem tem equipamentos que permitam usufruir corretamente o espaço. Não existe um centro interpretativo que conte a história daquele espaço, que foi palco de uma famosa batalha contra as tropas napoleónicas e de muitas peregrinações ao longo da sua via sacra, e que possa servir como um centro de educação ambiental. Não existe sinalética que permita saber quais as espécies vegetais e animais presentes e ofereça informações úteis sobre este enorme jardim botânico. Não existem percursos pedonais, nem visitas guiadas.

Um falhanço tão grande em promover e valorizar a Mata do Bussaco enquanto destino de turismo de natureza e educação ambiental não pode ser dissociado do seu modelo de gestão. Em 2009, a mata foi entregue a uma fundação, liderada desde então por um ex-Vereador da Mealhada, Engenheiro Civil de formação. Um retrato do país em que vivemos, em que trabalhos que exigem saber técnico e científico são entregues a pessoas sem a formação devida, enquanto pessoas com formação avançada enfrentam a precariedade e os baixos salários das bolsas de investigação científica.

Nestes anos, alguns erros foram feitos, tendo o Bloco chamado a atenção, em 2011, para o abate de algumas árvores protegidas. Mas o erro mais grave foi o subaproveitamento da mata, ao mercê de uma fundação que não tem a ambição nem os conhecimentos necessários para a valorizar devidamente.

Mais dois rudes golpes foram dados à Mata do Bussaco este ano. O forte vendaval que se sentiu em janeiro resultou no derrube de muitas árvores e no agravamento do estado de conservação do seu património edificado, já em mau estado. Como se isto não chegasse, o governo decidiu ainda proibir a autarquia de financiar a fundação que gere a mata, o que deixa esta fundação sem qualquer hipótese de ter receitas próprias. Se a Câmara da Mealhada é culpada de ter deixado a mata em coma, o governo de Passos e Portas é culpado de ter dado um golpe potencialmente fatal.

A candidatura do Bloco de Esquerda à Câmara da Mealhada não se conforma com esta situação, tendo defendido o investimento na reabilitação da Mata do Bussaco e a sua candidatura a Património Mundial da UNESCO. Outras candidaturas, do PS e da coligação de direita, dizem concordar connosco, mas recusam-se a por em causa o modelo de gestão atual. Mais importante ainda, estas candidaturas não explicam porque nada fizeram para implementar as medidas que agora dizem defender durante os últimos quatro anos, em que ocuparam os lugares do executivo municipal. Estas eleições, terão de responder pela sua negligência.


Sobre o/a autor(a)

Ricardo Coelho, economista, especializado em Economia Ecológica
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