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Maria Rapaz ou Maria Capaz?

Habitualmente, ignoramos que o uso da expressão Maria Rapaz é em última instância um elogio a traços de carácter apropriados pelas masculinidades hegemónicas. A música da artista Capicua não nos deixa esquecer que não reagir é compactuar com a perpetuação de estereótipos que condicionam a liberdade de meninas e mulheres.

Nos jardins ou nos parques infantis já todas ouvimos várias vezes mães ou avós dizerem com um ar orgulhoso que a sua menina é uma Maria Rapaz por demonstrar traços de liderança ou grande destreza física nas brincadeiras das crianças em liberdade. Ouvimos também à porta de escolas ou em almoços de domingos, professoras ou tias dizerem com tristeza que a sua menina é uma Maria Rapaz quando estas exibem os joelhos esfolados ou rematam uma conversa entre adultos com um comentário assertivo ou mordaz, livre dos constrangimentos e das amarras do que é considerado ‘apropriado’ ao seu género.

Habitualmente não reagimos ao rótulo de Maria Rapaz e tendemos a concordar com o uso que é dado em certas circunstâncias e não tanto noutras. Mas quase sempre deixámos passar a mensagem subliminar do género formatado. Ignoramos que o uso da expressão Maria Rapaz como elogio é, na maioria das vezes, uma crítica às meninas e em última instância um elogio a traços de carácter apropriados pelas masculinidades hegemónicas.

Vários estudos e trabalhos têm vindo a mostrar que o corpo e o pensamento são treinados de acordo com a definição de feminino e de masculino e de todo o rol de estereótipos e preconceitos que acompanham essa definição. Estes trabalhos sugerem que a utilização do masculino como elemento para comparação tem um papel determinante na reprodução de uma hierarquia de género.

A influência dos estereótipos na socialização de género tem levado a que mulheres e homens desenvolvam competências e interesses por áreas de estudo que são culturalmente definidas como mais apropriadas do ponto de vista do género conduzindo a opções académicas que se traduzem por assimetrias de género no mercado de trabalho com clara desvantagem para o sexo feminino.

As assimetrias de género resultam das características observáveis de sexo, dos processos de socialização diferenciados e da estrutura de dominação social mas alimentam-se também das opções comportamentais de mulheres e homens que optam por agir em conformidade (ou não) com o que é esperado do seu sexo e esta escolha confere uma qualidade performativa à construção da identidade de género. Contudo, é importante não esquecer os diferentes constrangimentos nas relações sociais que limitam a capacidade de escolha e de ação das pessoas e a instrumentalização dos papéis de género para a manutenção das assimetrias de poder entre mulheres e homens.

A linguagem é um dos elementos chave da transmissão da cultura, através da qual o saber é representado e as pessoas aprendem e ensinam as regras que orientam e cristalizam os papéis de género que meninas e meninos devem desempenhar. Tendo em conta a qualidade performativa do género, a maneira como expressamos elogios e encorajamentos tem uma influência significativa na construção da identidade das pessoas e de uma cidadania plena. Saudar, elogiar e divulgar o trabalho de quem, através das palavras e das rimas, tem o poder de interpelar milhares de pessoas e desconstruir os mitos que enformam e desinformam gerações e gerações é um contributo para construção da igualdade entre mulheres e homens.

A música da artista Capicua não nos deixa esquecer que não reagir é compactuar com a perpetuação de estereótipos que condicionam a liberdade de meninas e mulheres. Dos palcos dos festivais é importante levar a voz da Capicua aos jardins, aos recreios das escolas e aos almoços de domingos na casa da família. Que todas as meninas possam crescer livres e orgulhosas por serem quem são. Que a audácia, a liderança, a energia e a coragem sejam simplesmente atributos de mulheres capazes ou como diz a Capicua que todas sejamos capazes de dizer: eu sou Maria Capaz.

Sobre o/a autor(a)

Licenciada em Relações Internacionais. Ativista social. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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