O voto é uma das maiores conquistas da nossa democracia e o seu exercício é dos momentos mais transformadores para a nossa geração. A carga simbólica e histórica que este simples gesto tem é motivo mais que suficiente para a evocação da nossa memória colectiva, que nos transporta para a luta das pessoas trabalhadoras e para a solidariedade internacional dos povos que resistiram à violência e à opressão das potencias colonizadoras e aos regimes fascistas.
Imaginar o futuro tornou-se um exercício mais simples para nós, porque fazemo-lo em liberdade e em diálogo com a democracia, dimensões que são indissociáveis das conquistas emancipatórias alcançadas no continente africano e em Portugal.
A derrota do Colonialismo pelos povos africanos e consequentemente, o avanço contra a ditadura salazarista, alcançados pelo 25 de Abril, transformaram a nossa sociedade, criaram as condições para a garantia de direitos fundamentais. No entanto, sabemos que nenhuma conquista é um dado adquirido, durante anos as tentativas de recuos em princípios basilares que promovem a igualdade e a justiça social foram várias vezes experimentadas.
Não é despiciente afirmar que a falta de sinalização e combate às políticas racistas e discriminatórias poucas vezes foram levantadas e merecedoras de medidas concretas. Talvez, a luta pela igualdade tenha sido, até agora, reservada para quem dela necessitava, afastando todas as pessoas que pretendiam manter o seu privilégio. Esta pode ser uma das razões para que, nos 50 anos do 25 de abril, ainda se discuta visões tão retrógradas e anacrónicas sobre a vida e dignidade das pessoas trabalhadoras, em especial, das comunidades racializadas e das mulheres.
O ressurgimento dos discursos contra a imigração, muitos deles incitando a uma criminalização das pessoas migrantes, são sinais dos tempos que confirmam que o combate às ideias racistas é um imperativo que há muito devia estar absorvido no discurso e nas práticas da nossa democracia. Olhar para as desigualdades do ponto de vista da tendência “haute couture” (alta-costura), como algo que deve ser tratado com medidas simbólicas, nunca foi sério nem tão pouco, honesto para as pessoas alvo da discriminação étnico-racial. Esta passividade perpetuada por décadas, possibilitou que os partidos considerados democráticos, fossem incubadores de forças de extrema-direita para a disputa das ruas e das instituições.
Como dizia Sérgio Godinho “cuidado com as imitações”, neste caso concreto não é apenas uma imitação, nem nós estamos embalados numa sesta profunda, mas a desvalorização do fenómeno mundial da extrema-direita abriu caminho à normalização dos discursos de ódio, à violência contra as comunidades racializadas e às tentativas retrocessos do direito das mulheres.
Ninguém vai ao engano, a reorganização das forças fascizantes que despoletou, para reencenar todos os contos que glorificam velhos discursos com novas roupagens de modo a criar um clima de insegurança e desconfiança em relação às pessoas imigrantes, mas também, reificar discursos neocoloniais para subalternizar as comunidades portuguesas racializadas para negar direitos fundamentais que permitam a transformação das suas condições materiais.
Todas as eleições são um teste ao estado da democracia, o combate à abstenção tem sido um dos grandes desafios. A participação política e cívica é fundamental para a transformação social, o momento presente, não pode deixar ninguém indiferente o avanço das forças fascizantes deve ser derrotado nas urnas e nas ruas.
Contudo, abdicar do direito a depositar o nosso voto nas urnas, é desvalorizar o legado mais significativo que a classe trabalhadora herdou para continuar a aprofundar todas as conquistas alcançadas através das lutas colectivas.
Esta herança histórica além de ser um vulto de esperança que nos foi confiado, é também, o testemunho inequívoco que a transformação é um processo colectivo e organizado, onde todas as pessoas contribuem de igual forma para derrotar quem nos quer retirar os nossos direitos a viver em liberdade, igualdade e democracia.
Nunca é demais relembrar Tom Jobim e Elis Regina que eternizaram nas suas vozes a música “Águas de março canção”, com uma mensagem de esperança e resistência “São as águas de março fechando o verão/É a promessa de vida no teu coração”.
No dia 10 de março, que a promessa de uma vida boa seja possível para todas as pessoas. Vemo-nos nas urnas!