A Máquina de Esquecer

porSandra Guerreiro

01 de abril 2026 - 14:49
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O verdadeiro problema não são as diferentes “margens” que constantemente têm de justificar o direito à sua própria existência. O problema é um sistema que precisa de nos manter separados para que não enfrentemos em conjunto quem realmente nos ignora.

As tempestades que devastaram zonas de Portugal no início deste ano e os incêndios que assolaram o país no verão passado deixaram uma marca profunda não só nas terras, mas espelharam novamente uma realidade que já todos conhecemos: há locais e pessoas em Portugal que, pela sua localização e não só, existem apenas como paisagem, como destino de excursão, como raridade a observar. Árvores arrancadas, casas destruídas e vidas viradas do avesso revelaram, mais uma vez, que para o Estado português existem cidadãos de primeira, de segunda, de terceira — e depois pessoas que nem sequer perfazem as condições de uma cidadania plena. Mas esta não é uma história só sobre geografia. É sobre poder. É sobre como o mesmo sistema que abandona regiões inteiras também marginaliza imigrantes, pessoas neurodivergentes, mulheres, pessoas racializadas, comunidades pobres e comunidades com a coragem de viver a sua diferença sem se esconderem — como as pessoas LGBTQIA+. A pergunta que se impõe é: quando é que vamos deixar de estar divididos e passar a lutar em conjunto?

Este abandono não é novo, e os últimos desastres naturais que assolaram Portugal apenas tornaram essa realidade ainda mais óbvia do que já era. Os habitantes das regiões mais afetadas, muitos deles idosos ou em situação de pobreza, foram deixados à sua sorte, como se fossem menos merecedores de proteção. Mas esta não é uma realidade exclusiva destas zonas geográficas. Basta olhar para tantas zonas do país ou até para os bairros periféricos de Lisboa ou do Porto, onde imigrantes e famílias racializadas ou pessoas no limiar da pobreza vivem em casas degradadas, sem condições básicas de habitabilidade. Ou basta olhar para as pessoas com características físicas diferentes, que há anos lutam por acessibilidades que nunca chegam. O padrão é claro: o Estado falha quem não tem voz nos corredores do poder. A diferença é que, enquanto as populações rurais são esquecidas pela sua localização, outras são esquecidas pela sua origem, cor de pele ou condição física ou económica. A exclusão tem muitas faces, mas a mesma raiz.

As zonas rurais são tratadas como se fossem menos modernas, menos importantes. Os imigrantes são vistos apenas como mão de obra barata e passível de ser explorada. As pessoas com características físicas diferentes são ignoradas até ao momento em que alguém, para parecer bem, decide que talvez devam ser "incluídas". E as mulheres racializadas enfrentam discriminações duplas ou triplas: por serem mulheres, por serem negras ou ciganas, e por viverem em zonas pobres. Esta hierarquia de cidadania não é acidental — é construída por políticas que decidem quem merece investimento e quem pode ser deixado para trás. Quando o Estado corta fundos à saúde rural, mas autoriza a criação de centros de saúde privados em Lisboa, está a dizer que algumas vidas valem mais do que outras. Quando a Proteção Civil demora dias a chegar a uma aldeia inundada, mas age em horas num bairro nobre da capital, está a reforçar essa mensagem. A questão não é só "porque nos esquecem?", mas "porque aceitamos ser esquecidos separadamente?"

A máquina de esquecer não funciona sozinha — precisa de cúmplices. E um dos maiores cúmplices é a divisão entre aqueles cuja perda “não faz grande diferença”. É fácil culpar os imigrantes pela falta de recursos, como faz a extrema-direita que se alimenta no ódio que dissemina. É fácil olhar para as populações rurais como "atrasadas" ou para as crianças neurodivergentes como "fardos". É fácil, também, olhar de lado e com desdém para as comunidades LGBTQIA+, com o desplante de quererem viver as suas vidas em paz, sem clandestinidade — vidas plenas, ditas em voz alta, porque a coragem e a dor, apesar da discriminação constante, não são mutuamente exclusivas. Mas esta divisão é um truque. O verdadeiro problema não são as diferentes “margens” que constantemente têm de justificar o direito à sua própria existência. O problema é um sistema que precisa de nos manter separados para que não enfrentemos em conjunto quem realmente nos ignora. Quando um agricultor do Alentejo acha que o seu inimigo é um imigrante que trabalha nos campos, está a repetir o discurso de quem realmente o rouba: os grandes grupos económicos que gerem as reservas de água a seu belo prazer, os bancos, o Estado que não investe e os inúmeros empreendedores locais rapidamente transformados em senhorios que encontraram uma boa fonte de rendimento não declarado. Quando um lisboeta de classe média olha para os bairros sociais com desdém, está a ignorar que a precariedade que afeta aqueles bairros pode chegar à sua porta a qualquer momento, se a zona onde mora se tornar um bom local de investimento imobiliário.

Há, no entanto, quem teimosamente se recuse a ser esquecido e apagado, e esteja a lutar contra esta divisão. Existem hortas comunitárias, projetos teatrais que denunciam as condições de trabalho de imigrantes em Portugal, existem coletivos que ligam a luta antirracista à defesa dos direitos laborais. Existem movimentos que afirmam que a habitação digna é um direito de todos, independentemente da origem ou do rendimento. Estes são alguns exemplos de como a solidariedade não é um ideal abstrato, mas uma estratégia de sobrevivência. Quando as populações rurais e os imigrantes se unem, quando as pessoas com características físicas diferentes e as minorias racializadas lutam lado a lado, tornam-se mais difíceis de ignorar. O Estado pode fechar os olhos a uma aldeia abandonada ou a um bairro pobre, mas não pode ignorar uma aliança de milhares. Só o povo ajuda o povo — e isso vê-se claramente quando acontecimentos extremos como tempestades, cheias ou incêndios ocorrem.

Construir alianças não é fácil. Requer reconhecer privilégios e preconceitos dentro dos próprios grupos marginalizados. Um agricultor branco pode nunca ter pensado no racismo que um trabalhador imigrante enfrenta. Um ativista urbano pode não perceber as dificuldades de quem vive numa aldeia sem transportes. Mas é precisamente neste diálogo que reside a força. Aprender com as lutas uns dos outros não é só uma questão de justiça — é uma questão de eficácia. Os imigrantes sabem como organizar greves para chamar a atenção. As populações rurais sabem como resistir ao despovoamento com cooperativas de habitação. As pessoas com características físicas diferentes sabem como pressionar por leis de acessibilidade. Juntos, estes saberes tornam-se uma força poderosa, anímica e difícil de ignorar.

O que podemos fazer, então, para transformar esta realidade? Podemos mapear as lutas — saber quem está a lutar pelo quê, onde e como. Podemos criar campanhas comuns, exigindo, por exemplo, que os orçamentos participativos incluam todas as regiões e grupos sociais. É possível educar-nos mutuamente, através de oficinas, debates e trocas de experiências entre diferentes comunidades. Também é possível pressionar politicamente, unindo forças para influenciar autarquias, partidos e políticas públicas. E é necessário, ainda, construir narrativas alternativas, usando redes sociais, jornais locais e arte para contar histórias de resistência que a comunicação social tradicional ignora. Se uma aldeia no interior e um bairro em Lisboa se unirem para exigir água potável e transportes públicos, o Estado não poderá ignorar ambos ao mesmo tempo.

Um país sem margens é possível, mas só se formos capazes de, coletivamente, meter mais mãos à obra. Há exemplos por todo o mundo de como isto pode ser feito. O desafio está em escalar estas iniciativas locais e verdadeiramente comunitárias, transformando-as em políticas públicas. Para isso, é preciso superar o individualismo que nos foi imposto e o ceticismo que nos paralisa. "Nada muda" é o mantra de quem beneficia do sistema atual. A história prova o contrário: quando as pessoas se unem, é aí que os poderes instalados começam a tremer.

Este não é um apelo à caridade, mas à justiça. A solidariedade não é um favor que se faz aos outros — é o reconhecimento de que as nossas lutas estão interligadas. Quando alguém que vive numa aldeia é abandonado, quando um imigrante é explorado, quando uma mulher racializada é discriminada, quando uma pessoa não cisgénero ou neurodivergente é olhada de lado, é o mesmo sistema que está a funcionar. A pergunta que fica é: vamos continuar a deixar que nos dividam, ou vamos finalmente perceber que a nossa força está no chão comum de sabermos que a nossa existência incomoda? As próximas tempestades virão. A questão é: estaremos sozinhos ou juntos?

Podemos começar hoje, com pequenos gestos de mudança. Em vez de olharmos para as "margens" apenas como tema de reportagem ou estatística, podemos bater à porta da associação do nosso bairro, perguntar o que está a faltar na aldeia dos nossos avós, ouvir o sindicato onde trabalhamos, apoiar o grupo de imigrantes que se está a organizar, ou simplesmente aparecer na próxima reunião de coletivos locais ou até na próxima assembleia de freguesia. Não precisamos de esperar pelas próximas tempestades para descobrir que dependemos uns dos outros — e que é uns com os outros que nos afirmamos coletivamente.

Um país não se decide em Lisboa. Decide-se nas aldeias abandonadas, nos bairros periféricos, nas associações de imigrantes, nos coletivos ambientais, pelas causas climáticas, pela defesa dos direitos dos animais, nas casas abrigo para mulheres e crianças vítimas de violência doméstica, nas redes de solidariedade que se criam quando as pessoas tomam o seu presente nas próprias mãos e trabalham coletivamente. Decide-se em cada gesto de solidariedade, em cada campanha comum, em cada momento em que escolhemos lutar lado a lado em vez de nos deixarmos dividir.

A margem não é um lugar — é uma condição imposta a quem o poder quer esquecer.
Mas quando as margens se unem, tornam-se o centro da mudança. E é essa força centrífuga, criada quando vamos ao encontro uns dos outros e nos olhamos e nos ouvimos, que faz tremer os que vivem do nosso esquecimento.

Sandra Guerreiro
Sobre o/a autor(a)

Sandra Guerreiro

A viver no Reino Unido desde 2012, trabalha na área da neurodivergência. Integra o Núcleo do Círculo da Europa do Bloco de Esquerda. Está ligada ao ativismo migrante e da prevenção e combate à violência contra as mulheres e violência doméstica. É também poeta e tradutora.
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