Hoje, em Gaza, 170!...
Em jeito de boletim meteorológico, sabendo-se que ontem tinham sido 190, seríamos levados à previsão otimista, em baixa, de que amanhã pudessem ser só 150 palestinianos mortos em Gaza...
A juntar à destruição e ao número inaudito de palestinianos, jornalistas e funcionários da ONU mortos, algumas imagens e informações que nos chegam são elucidativas dos objetivos do poder extremista instalado em Israel.
É paradigmático da sanha assassina das forças israelitas:
– O ataque a um fotojornalista palestiniano, levado a cabo por polícias de fronteira israelitas, em Jerusalém oriental. A única “arma” que o jornalista transportava era a câmara fotográfica. As cobardes agressões foram “filmadas”. As imagens da violência e da desproporção do ataque embaraçaram as autoridades israelitas, a ponto de os agressores terem sido suspensos pela Polícia de Fronteiras, a qual anunciou uma investigação da ocorrência. Os polícias tiveram azar, foram apanhados, quiçá pela câmara de um telemóvel, numa ação que contraria a narrativa de Israel de que a guerra que está a levar a cabo é exclusivamente contra o Hamas. Se não tivesse havido imagens, decerto que, em vez da suspensão, os polícias teriam sido considerados heróis do combate ao terrorismo...
– O assassínio, por engano, dos três reféns israelitas. Apesar de estarem em tronco nu, agitando um pano a fazer de bandeira branca, foram impiedosamente mortos pelas IDF israelitas, eufemisticamente designadas de forças de defesa.
– O assassinato de uma criança palestiniana de 6 anos.
“Silêncio SFF, que estão a matar”, de Nuno Ramos de Almeida, no DN, é uma pungente descrição da tragédia.
– O alastrar da ocupação, com os assassinatos e a expulsão de palestinianos da Cisjordânia.
– A profanação das campas nos cemitérios palestinianos.
– Até agora, trinta mil palestinianos mortos e setenta mil feridos. Muitos mais haverá com as condições absolutamente desumanas impostas pela barbárie israelita a 1,3 milhões de palestinianos encurralados no sul de Gaza: falta de água potável, de alimentos, de medicamentos, com a consequente proliferação de doenças fatais, para mais com os hospitais inoperacionais ou mesmo destruídos.
Israel rejeita a acusação de genocídio, aliás, como sempre a rejeitam os genocidas.
Josep Borrell tem sido uma das poucas vozes isoladas no oceano de cumplicidade da maioria dos governos do Ocidente. O chefe da diplomacia da União Europeia não hesitou em denunciar o que já se sabia há muito, que o Hamas tinha sido uma criação do poder em Israel, tendo sido inclusivamente financiado por este.
Infelizmente, continua atual a exigência de cessar-fogo. Apesar do sentimento de impotência perante a teimosia do governo israelita, ecoa por esse mundo fora o clamor “Ceasefire”.
Israel está cada vez mais isolado. Não obstante, Netanyahu dá-se ao luxo de decretar que nem pensar na solução dos dois estados. Não fosse a enorme tragédia, provocariam gargalhada de dimensão planetária as patéticas recomendações dos EUA e de outros governos ocidentais para Israel não matar tantos palestinianos. Não fosse o apoio financeiro e em armas por parte dos EUA, assistiríamos à versão israelita do “nosso” “orgulhosamente sós”...
Todos não somos demais para exigir o cessar-fogo imediato e a solução dos dois estados, sem prejuízo da exigência do julgamento dos culpados pela carnificina e pelos crimes de guerra.
Nas autarquias, o Bloco de Esquerda tem-se destacado pela manifestação de indignação relativamente ao genocídio em marcha. O Bloco apresentou, nalgumas assembleias, moções a favor da paz, em particular, relativamente ao conflito israelo-palestiniano, defendendo um cessar-fogo, que o mesmo é dizer, cessar o já referido genocídio.
Numa assembleia municipal de Lagoa, o Bloco apresentou, em dezembro passado, uma moção, precisamente a condenar o genocídio levado a cabo por Israel sobre o povo palestiniano e a exigir o cessar-fogo, a exemplo do que já fizera o Secretário Geral da ONU, António Guterres.
Na altura, o mundo era diariamente sobressaltado por notícias como a que consta na primeira destas linhas: “Hoje, em Gaza, 170!...”
A moção foi chumbada pelo PS, pelo Chega e pelo Movimento Lagoa Primeiro. O PSD absteve-se, tal como quatro elementos do PS, incluindo os membros da Mesa. Votaram favoravelmente a CDU e, obviamente, o Bloco.
As justificações para a rejeição da moção incidiram na sua fundamentação e na pretensa linguagem extremista. Os intervenientes variaram entre o apoio descarado à ocupação sionista, da parte de um “lagoense primeiro”, e o verter de lágrimas de crocodilo, por parte de outro, ainda assim, “[tendo] pena de não poder acompanhar uma moção mais do que justa para travar o genocídio de um povo, de acompanhar as resoluções da ONU e os esforços do seu Secretário Geral”. (Realce meu para o “extremismo” da linguagem, de fazer inveja ao Bloco, da parte de um chumbador da moção...)
Com vista à aprovação da moção, o membro do Bloco chegou a aceitar o repto do PS, para retirar a referência ao governo, entendida naturalmente como um feroz ataque aos seus... Mas nem assim, a maioria do PS–Lagoa, apesar de condenar a guerra e garantir que era pela preservação da vida humana, não se rendeu ao facto de a moção não ser tão amena quanto achavam que devia ser.
Compreende-se, também no conflito israelo-palestiniano, o governo português não quer desalinhar dos donos do império e, a exemplo do governo PSD/CDS de há alguns anos atrás, não quer deixar em mãos alheias o comportamento de “bom aluno”.
Apesar das bondosas recomendações relativas aos exageros israelitas, o governo português tem-se esquecido do reconhecimento, também do estado palestiniano...
Os principais responsáveis pela carnificina podem continuá-la beneficiando do apoio ou da omissão da parte de muitos cúmplices menores. Quando a barbárie for travada e forem pedidas contas, uns vão lavar as mãos, outros vão escapar-se como enguias.
A moção do Bloco de Esquerda foi chumbada, não obstante a maior parte dos ilustres tribunos daquela assembleia repetir as palavras que o Bloco tinha na sua moção.
Na assembleia municipal de Lagoa, perdeu-se uma boa oportunidade de apoiar – por pouco que fosse – o martirizado povo palestiniano.
Não obstante a rejeição da moção, foi com base nela que se repetiram para a História os rasgados elogios a Guterres.
Que pena António Guterres não ter estado presente, naquele auditório!...