Mais liberdade para explorar os refugiados ucranianos?

porRui Pedro Moreira

24 de março 2022 - 11:35
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São avisos à navegação que sinalizam os indesejados improdutivos, os mal amados, as vítimas do mercado autorregulado da teoria liberal. Tudo isto é desnecessário: nem os portugueses merecem, nem os ucranianos precisam. Nem na perspectiva social, nem na laboral.

É chocante a manipulação e aproveitamento que muitos já estão a fazer com os deslocados e refugiados, vítimas da guerra sangrenta que grassa no centro da Europa. Pior ainda são aqueles que, a coberto de uma suposta moralidade por estarem numa posição alegadamente superior no combate e ajuda aos desfavorecidos, usam essa capa para subliminarmente passar mensagens de racismo e de medo, de ódio e de indiferença. José Crespo de Carvalho é um "influencer" (já lá vou).

A conclusão da eventualidade de 30 mil pessoas alterarem profundamente o mercado de trabalho português é, numa primeira leitura, muito arriscada. Saberá o autor quantas pessoas trabalham nos sectores que indicou no seu texto (https://observador.pt/opiniao/os-ucranianos-em-portugal-e-a-mudanca-do-mercado-de-trabalho/ construção, restauração e turismo)? Houvesse seriedade, honestidade e vontade, e bastaria fazer uma pesquisa breve, por exemplo na Pordata, e a conclusão é que em 2021 existiam cerca de 4 milhões e 800 mil pessoas activas no mercado do trabalho e, dessas, 305 mil na construção e 250 mil na restauração e turismo. Portanto, só numa penada e sem gastar mais tempo aos leitores, cai com estrondo a primeira tese de que 30 mil novos trabalhadores poderão mudar drasticamente o perfil do mercado de trabalho em Portugal. Não muda. Parece um número imenso - e é, sobretudo pelo drama humano que cada um e cada uma traz consigo - mas outra coisa é olhar para o todo em perspectiva. As parangonas e as "gordas" podem resultar para alguns e fazer o caminho dos soundbytes, mas há quem se dê ao trabalho de desmontar teses catastrofistas. É um discurso alarmista e desnecessário (a não ser que interesse ao "seu" Instituto +Liberdade, esse paraíso de liberais, um maná de azulinhos, ávidos da implementação de uma economia de mercado assente no individualismo e no empreendedorismo, do salve-se quem puder que o mercado selecciona naturalmente e exclui os fracos, na linha do que Jeff Bezos faz na sua Amazon, com tremendas histórias de lutas por melhores condições de vida e consequentes perseguições aos críticos do sistema).

Tudo isto é desnecessário: nem os portugueses merecem, nem os ucranianos precisam. Nem na perspectiva social, nem na laboral

Mas a maior preocupação que tenho com o que o articulista escreveu é com o que está sugerido nas entrelinhas, nunca assumindo o que realmente pensa. É o caso clássico do "atirar a pedra e esconder a mão". Atentem a frases como "poderá haver uma nova força de trabalho que trabalha mais e reclama menos" ou "é também certo que a verificar-se esta vinda haverá muitos portugueses que serão preteridos por ucranianos" e ainda "seria bom que os portugueses pensassem nisto a sério".  São avisos à navegação que sinalizam os indesejados improdutivos, os mal amados, as vítimas do mercado autorregulado da teoria liberal. Tudo isto é desnecessário: nem os portugueses merecem, nem os ucranianos precisam. Nem na perspectiva social, nem na laboral.

Já lá vou ao restante texto no suspeito Observador do co-fundador da organização We Help Ukraine, mas estas primeiras ideias que transcrevi são tão, mas tão insultuosas para os portugueses que trabalham e são explorados porque lançam o medo e promovem a xenofobia. Por um lado, desejam ter trabalhadores ordeiros, acríticos e mal pagos, imagino que lhes convenha uns mudos, dizendo aos que ocupam trabalhos "menores" que ou se portam bem ou serão empurrados porta fora, para o desemprego. É de uma enorme frieza. Não há no texto uma única preocupação com a protecção social, nem com a igualdade de género, nem sobre o trabalho infantil nem com nada que já se convencionou que é elementar, é apenas a ideia vampiresca de substituir uns refilões pelos desgraçados/as e desesperados/as e, nisso, as empresas portugueses serão muito astutas, diz. Leiam: "os primeiros números de procura de trabalhadores ucranianos pelas empresas portuguesas não enganam. Portugueses, é agora ou nunca. Estudem, invistam em vós próprios, porque é um investimento, e tirem partido daquilo em que sempre foram também bons. Sempre reconheci a capacidade de investir, o desenrasca, o querer fazer bem, o querer fazer melhor por parte dos portugueses. Chegou a altura de mostrarem o que valem ou outros virão e ficarão com os vossos lugares". Ora, batem com a mão no peito, que "somos os maiores", mas são os primeiros a largar a corda e a deixar qualquer um cair pela ravina. Mal comparado, parecem aquelas conversas do futebol, em que se diz confiar no treinador desde sempre até à derrota no domingo seguinte e deixam-nos sem rede, sem apelo nem agravo. É mesmo uma enorme hipocrisia, são avisos de metralhadora na mão.

Mudar a sociedade, no seu todo, começa pelo mais básico que é o contrato de trabalho, o vencimento e a protecção social. Dar futuro às pessoas. Este ex-administrador da CGD ignora isso tudo

Portanto, sabemos agora que existem pessoas que querem aproveitar esta oportunidade, como escreve, para relançar o debate sobre o mundo do trabalho mas neste caso, com este pensamento, será para o nivelar por baixo, para suprimir a negociação e aproveitar as fraquezas de uns e lançar o pânico noutros. É muito infeliz. O mercado de trabalho em Portugal tem muitos problemas e nenhum se resolve com a dor que é sugerida pelo articulista, que apenas se concentra na maximização do lucro e no aproveitamento de gente indefesa. Hoje ucranianos, amanhã outros que lhes sejam úteis para alimentar a causa liberal. Mudar a sociedade, no seu todo, começa pelo mais básico que é o contrato de trabalho, o vencimento e a protecção social. Dar futuro às pessoas. Este ex-administrador da CGD ignora isso tudo. Não gasta uma linha para se preocupar com os milhares de trabalhadores que são explorados, com os trabalhadores que são precários, com as mulheres que são vitimas de discriminação, com o conforto e qualidade de vida de quem está e de quem agora tem de cá estar. Está totalmente despreocupado se vamos ter novas Odemiras, o que interessa é controlar os rezingões e mal agradecidos e substituí-los por gente que tem de obedecer a tudo, sem pestanejar. Quando terá sido a última vez que consultou os índices de pobreza em Portugal?

"Não têm forma de exigir muito, mas trabalharão muito. Não têm forma de querer voltar costas ao trabalho, porque apenas lhes resta trabalhar. E virão para trabalhar." Já os estou a ouvir: venham, sofredores, venham gente desgraçada, venham cá que as empresas portuguesas vão tratar da vossa saúdinha e ao mesmo tempo tratar da vidinha dos parasitas que por cá andam. Com a vossa ajuda, vamos conseguir eliminar os Sindicatos, reduzir a pó a conciliação do trabalho com a vida pessoal, esquecer esse conceito antiquado como o horário de trabalho. Vinde a mim, homens, mulheres e crianças desesperadas, se se portarem bem ainda recebem mais uma latinha de atum no cabaz de alimentos, há todo um futuro em Portugal que cuidará da vossa miserabilidade. Nós, os empreendedores das empresas portuguesas, inspirados nos ultra liberais da vida, e junto da nossa gente de bem, vamos pensar num nome giro, em inglês, para vos dar aquele toque de modernidade com cheirinho a estrangeiro que vocês tanto precisam enquanto vos alojamos nesse T0 com kitchnet com direito a tv por satélite, tudo com o alto patrocínio do Estado Português porque nós somos uma instituição sem fins lucrativos e não temos capacidade financeira para resolver este vosso problema.

Discordo, em absoluto, do conteúdo, forma e propósitos do articulista/influencer/marketrer/liberal. A abordagem correcta seria tentar perceber como 30 mil novas pessoas no mercado de trabalho, que representam apenas 0,6% face ao número de trabalhadores no activo - logo, não é um número significativo e não vai alterar profundamente rigorosamente nada - como é que esta inclusão pode ser benéfica para todos, como é que ganhamos todos (na perspectiva laboral, unicamente): pessoas com conhecimentos que nos ajudem a crescer enquanto colectivo, adicionando as boas práticas pelas quais tenham passado. A mudança do tecido empresarial português também se pode fazer com a integração de outras culturas e métodos que nos possam levar a um somatório e não a um diminuir de expectativas e de concretizações. Ainda por cima, e é mais um ponto de discórdia, é partir do princípio que todos esses putativos 30 mil vão ficar por cá permanentemente - haverá quem deseje regressar o mais rapidamente a casa e reconstruir o futuro. Os que decidirem ficar devem ser integrados numa sociedade e num mercado de trabalho com esperança, com direitos, com regalias e privilégios. Sim, os trabalhadores na base da pirâmide devem ter regalias e privilégios e ganhar (bem) mais que o Salário Mínimo Nacional.

Uma nota breve e final para o Observador: cuidado com as companhias, façam um exame interno e não caiam na tentação de tudo permitir por um qualquer sensacional clickbait. Não vulgarizem o discurso xenófobo da extrema-direita. Com a banalização deste discurso, não daqui a muito tempo, teremos os ucranianos a serem insultados pelos portugueses, porque os portugueses ficaram sem trabalho. Tenham muito cuidado com a promoção da violência.

Rui Pedro Moreira
Sobre o/a autor(a)

Rui Pedro Moreira

Ativista laboral
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