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Maduro maio

A pandemia ainda não tem um “pós”, mas a crise económica e social já não tem um “pré”. Maio é o mês desta constatação. E é agora que as escolhas determinantes têm de ser feitas, sob pena de não travarmos a tempo sofrimento que seria evitável.

Lembro o maio da infância, que começava com as giestas amarelas nas portas e janelas, marchando à tarde no meio dos trabalhadores. Em cabeça tão jovem, não havia estranheza na síntese entre o sagrado e o profano, entre misticismo e materialismo. Um humanismo idealista tinha a arte de conjugar tudo na simplicidade de tempos idos e o otimismo que só os tenros anos conhecem.

Cem dias que abalaram o mundo

Pedro Filipe Soares

Bem diferente é o maio que agora começa. Muda rapidamente o semblante, fica mais carregado. A pandemia parece controlada, sem podermos cantar ainda vitória. Mas os dias do desconfinamento abrem as portas a uma dura realidade que até agora só alguns conheciam.

Li, há dias, uma jornalista falar sobre o lay-off. Do seu layoff e de colegas de redação que partilham a dura sorte. Já não era a vida dos outros, a análise resguardada que a distância das palavras permite, era o seu layoff. E como as palavras mudaram, como a vida transforma o que para nós significam. O dicionário da vida é bem mais marcante, porque as palavras ganham forma, materializam-se os conceitos, torna-se palpável o seu significado.

O layoff é o corte de um terço do salário. Dirão alguns que é melhor que o desemprego, mas essas são as vozes do costume, para quem uma pálida imagem de um direito é sempre melhor do que direito nenhum e o buraco pode sempre ser mais profundo. Mas, quem sofre esse corte no salário sabe como a realidade é bem mais dura, tão mais quando anteriormente a duração do mês já desafiava a duração do salário. A desvalorização salarial passa aqui dos livros de economia para a vida de milhares de trabalhadores.

Espremer a laranja

Pedro Filipe Soares

O desemprego já está galopante. Não é só no país, é no mundo. A pandemia não conheceu fronteiras, a crise segue o mesmo caminho. E os países que não proibiram os despedimentos conhecerão isso mais amargamente. Esse foi um dos erros que o Governo cometeu, falhando a coragem para uma medida essencial que evitasse uma maior destruição da economia. Devia ter proibido os despedimentos, como aconteceu em Itália e em Espanha. A fatura virá a dobrar, na quebra dos rendimentos individuais e nas perdas no mercado interno.

As crises são momentos de tensão, colocam stress nos sistemas. E sempre que há peças mais soltas, mais frágeis e menos protegidas, são as primeiras a sofrer. Os direitos dos trabalhadores, a proteção dos seus vínculos, fazem parte dos estabilizadores automáticos que as crises colocam à prova. O debate sobre as alterações ao Código do Trabalho em que se propunha desconstruir o legado da troika nos direitos laborais tem agora um significado diferente. Quanto mais frágeis esses direitos, menor a proteção, maior o desastre social. Que o digam os temporários, os precários, muitos trabalhadores informais como as empregadas domésticas, agora sem a rede de segurança que devia chegar a todos em momentos de crise.

O maio que agora começa carrega uma energia especial. Dizia o Zeca que “maio nasceu/que a voz não te esmoreça” e é esse o desafio. É essa energia que precisamos para enfrentar e vencer esta crise

A pandemia ainda não tem um “pós”, mas a crise económica e social já não tem um “pré”. Maio é o mês desta constatação. E é agora que as escolhas determinantes têm de ser feitas, sob pena de não travarmos a tempo sofrimento que seria evitável. Os direitos a salvaguardar, os setores estratégicos a proteger, é este o momento das definições, não é depois. Deixar passar o tempo é falhar o momento.

A frase governamental que tem marcado o momento é: “despesas do Estado hoje são impostos de amanhã.” Há um erro económico de palmatória nesta afirmação, pois a recessão económica e o desemprego que não conseguirmos evitar serão as perdas de amanhã, em receita fiscal e contribuições para a Segurança Social. O que fizermos hoje para evitar que a crise se aprofunde será a proteção das contas públicos do futuro. Por outro lado, é uma desistência de uma visão que alcance mais do que o nosso estafado modelo de desenvolvimento assente no imobiliário e no turismo.

O maio que agora começa carrega uma energia especial. Dizia o Zeca que “maio nasceu/que a voz não te esmoreça” e é esse o desafio. É essa energia que precisamos para enfrentar e vencer esta crise.

Artigo publicado no jornal “Público” a 1 de Maio de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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