London calling

porAndré Beja

10 de agosto 2011 - 4:27
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O contexto em que se desenrolam os tumultos de Londres não os torna mais toleráveis, mas olhá-los num plano mais alargado dá-nos uma panorâmica dos danos e riscos que as políticas de austeridade representam.

A grande maioria notícias que, por estes dias, nos chegam de Londres através dos média tradicionais seguem o mesmo fio condutor, o dos vândalos que se estão a aproveitar de uma situação grave - a morte, às mãos da polícia, de um presumível gangster - para saquear e destruir património alheio.

É a versão oficial dos acontecimentos, alimentada pela imagem do Primeiro Ministro Cameron, respaldado por um polícia negro, a prometer castigos severos ou pelos continuados apelos à calma feito por diversos lideres religiosos.

Ao fim de quatro dias a ouvir variações do mesmo discurso, decidi perguntar a uma amiga que vive em Inglaterra se já há barricadas na sua cidade. A resposta não me espantou: “o que está por detrás de tudo isto não afecta em muito a maioria da população daqui. Muitos nem o sentem”. Pois claro.

Ao longo do último ano, a política de austeridade, conduzida pelo governo da coligação Conservador/Liberal, provocou aumento de impostos directos, transportes ou propinas, cortes nos serviços públicos e nos mecanismos de apoio social ou aumento brutal do desemprego.

As consequências deste jogo, que Cameron lidera e que Clegg suporta contra o seu programa, são pesadíssimas e a fractura social está a aprofundar-se. Não é um jogo inocente, com resultados inesperados, mas sim uma política com sentido e motivação de classe, que, para lá turbulência em curso, gerou, ao longo do último ano, um campo de radicalização e de luta, mobilizando greves e manifestações de centenas de milhar de estudantes, trabalhadores, desempregados, sindicatos e organizações índole diversa.

E é esta fractura que, também por cá, está a ser desvalorizada pela imprensa e ignorada pelos mais destacados fazedores de opinião da direita e até por alguns sectores próximos do PS. Parece que nada aprenderam com o que se passou em Paris no Outono de 2006.

O contexto em que se desenrolam os tumultos de Londres não os torna mais toleráveis, mas olhá-los deste plano mais alargado dá-nos uma panorâmica dos danos e riscos que as políticas de austeridade representam.

André Beja
Sobre o/a autor(a)

André Beja

Enfermeiro, doutorando em Saúde Internacional no IHMT/NOVA. Deputado municipal em Sintra, eleito pelo Bloco de Esquerda
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