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Léxicos de Esquerda para cabeças duras

A inter-relação entre movimentos sociais e partidos de esquerda é essencial na construção de um léxico comum, de um vocabulário partilhado, para construir gramáticas políticas comuns.

Enquanto viajo a caminho do Reino Unido, no dia a seguir às eleições, o panorama político do país altera-se a ponto tectónico: ondas de choque de uma eleição para uma política xenófoba, imperialista e ultracapitalista que resultou num parlamento de muito difícil gestão. O jogo de May correu-lhe mal e acabou por confirmar a escolha de Jeremy Corbyn, o tal que não conseguia ganhar nada por ser de esquerda. Não, não apenas Labour, mas de esquerda. Corbyn sofreu das tentativas de maior ataque da imprensa na mão da direita caceteira, neoliberal em esteroides e reacionária– inclusivamente dentro do seu partido, os new labours a exigirem moderação e sobretudo obediência ao capital. Muita gente votou em Corbyn, apesar destes ataques. A diferença é que ele veio reposicionar o Labour, que já não está sob controlo das 3ªs vias, da herança thatcherista que veio a provar-se Tony Blair e do modo como deu luta dentro e fora do seu partido à ideia de que a esquerda é a derrota. Alguém se lembra de Bernie Sanders?

Os media precisam de ser confrontados e questionados na sua falta de noção, na fraca lógica das suas notícias, tantas vezes escritas na voz do amo . Olhando o panorama da imprensa, o que vemos são as razões porque Trump foi eleito. Numa disputa acirrada, só comparável à de abutres sobre carniça, para os media mainstream quanto pior melhor. Nem só que são controlados pelo pior que há em termos políticos – veja-se Rupert Murdoch e tantos outros- como estão centrados em espicaçar o pior que temos, para que com isso, possam entrar nos governos e nos lucros. E nenhuma figura tão disposta a isso como Donald Trump, o presidente que twitta. Constantemente twitta e comenta. Culpa, responsabiliza e como sabemos sempre, a culpa não é dele. Ou como os golpistas no Brasil, onde para quem a corrupção só conhece o PT, tudo o resto é gente séria e de família, até que percebemos que há políticos de direita brasileiros com o calibre de Narcos. Tudo gente séria. De família. E claro, apoiados pela imprensa.

Precisamos de glossários e de gramáticas políticas que nos façam sair desta hegemonia que a longa marcha do neoliberalismo, como bem lhe chamou Stuart Hall, que nos permitam perscrutar além de uma conceção de política tão revoltante como a que é praticada por esta gente e perceber de que forma podemos formar coligações com movimentos sociais e com as pessoas para encontrar modos de disputar essa hegemonia de que fala Gramsci. Uma política de esquerda que requer que a política seja usada para fazer valer a voz, os desejos e as necessidades das pessoas. Então como fazer isso, sem complexificar o discurso da esquerda, que já não se centra apenas na classe e nas desigualdades que a mesma produz, mas que é capaz de ler como estas se vão intercetar por outras posições, ou seja, interseccionalidade.

Uma das soluções consiste em ouvir os movimentos sociais, aprender o seu vocabulário, usar as suas gramáticas políticas, aprendendo com estes para melhor ser capaz de entender o que as populações precisam em termos de políticas públicas. Um excelente contributo para isto é a obra de Ian Parker, Revolutionary Keywords for a New Left, editada pela Zero Books. Parker, um militante de esquerda e académico britânico, dá-nos uma leitura de 50 palavras chave para as militâncias de esquerda de hoje e de amanhã, especificando e sempre recorrendo a histórias de esquerdas para melhor as localizar. Palavras com origem nos estudos de género, no ativismo afro e negro, trans e queer, nos estudos pós-coloniais, nos movimentos pela descolonização, feminismos múltiplos e sempre plurais, ajudam a esquerda a sair do buraco em que alguns nos decidiram meter: o das causas únicas, dos assuntos únicos e das políticas para um proletariado que é todo ele atravessado por estas múltiplas questões, trabalho, classe e condições materiais de existência, mas também outras identificações, islamofobia, multitude, branquitude, performatividade, queer, cis, trans, precariedade, justiça, entre as 50 palavras que compõem este livro. Estes novos léxicos são urgentes sobretudo para esquerda cabeça dura, que já devia estar em processo de descolonização do passado, para poder dar conta da complexidade do presente e apresentar novas soluções. Estes novos léxicos dos quais precisamos para nos imponham como necessária a transformação social, política e económica nas múltiplas esferas da nossa ação. Ian Parker toma como missão fazer uma política para além dos fragmentos, título aliás da obra histórica de Sheila Rowbotham, Lynne Segal e Hillary Wainwright, recentemente reditada, Beyond the fragments, que nos ensinaram que não há esquerda possível sem os inputs e o trabalho constante dos movimentos sociais, numa aprendizagem constante de que não há política sem movimentos sociais nem política sem partidos. Essa lição é das mais importantes neste trabalho. A inter-relação entre movimentos sociais e partidos de esquerda é essencial na construção de um léxico comum, de um vocabulário partilhado, para construir gramáticas políticas comuns.

Sobre o/a autor(a)

Investigador auxiliar do ISCTE. Coordenador da linha temática Género, Sexualidade e Interseccionalidade do Centro de Investigação e de Intervenção Social-IUL
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