Esta semana, ficámos a saber através de uma reportagem da Visão que o Governo tem uma sala de maquilhagem na sua sede. Supostamente de utilização comum para os ministros, parece que a sala é usada quase exclusivamente por Leitão Amaro antes das conferências de imprensa do Conselho de Ministros. Não é essa a tradução perfeita da política deste governo?
O ministro da Presidência é, na verdade, uma espécie de ministro da maquilhagem da política do Governo. Se ao longo de dois anos o Executivo de Montenegro falhou em resolver a crise na saúde, na habitação, e agora na crise de custo de vida provocada pela guerra de Trump e Netanyahu, Leitão Amaro tem uma solução para o problema: embelezar a ação do Governo com estética e comunicação.
Essa maquilhagem política tem duas vertentes. A primeira é inundar a agenda pública com temas fraturantes, cruzadas contra moinhos de vento e guerras culturais que distraem da incompetência do governo. É a estratégia que Steve Bannon, o grande ideólogo da extrema-direita e impulsionador dos movimentos populistas na Europa, cunhou e apelidou de flood the zone (traduz-se para “inundar a área”).
Montenegro celebrou um ano de Governo a falar quase exclusivamente da Lei dos Estrangeiros, Lei da Nacionalidade e Lei do Retorno, depois saltou para a lei da autodeterminação de género. E enquanto o frenesim se ia montando sobre esses processos políticos, deixava-se de falar dos partos nas ambulâncias e da contrarreforma laboral que cada vez está mais isolada.
A segunda vertente é a habilidade de transformar políticas que prejudicam a maioria que vive do seu salário em projetos de oportunidade e mérito. A contrarreforma laboral, que não tem o apoio de nenhuma central sindical, transforma-se, com a maquilhagem de Leitão Amaro, num boost de produtividade. A ministra do Trabalho tenta convencer-nos de que eternizar contratos a termo, trabalhar mais duas horas por dia sem receber, retirar o direito à reintegração nas situações de despedimento ilícito, renunciar a créditos que os trabalhadores têm direito a receber ou despedir trabalhadores para depois contratar outros com vínculo mais precário e salário mais baixo é bom para os trabalhadores. Maquilhagem não falta para aquele que é um retrocesso brutal nos direitos do trabalho.
Em dois anos de Governação, a saúde piorou. Há um milhão e 88 mil pessoas à espera de uma consulta. Mais 13,8% por cento do que há um ano. 274 mil à espera de uma cirurgia. Um milhão e meio sem médico de família. Mais do que quando este Governo tomou posse. Mas parece que corre tudo bem: a ministra diz-nos que "o SNS nunca deu uma resposta tão intensa em qualidade e quantidade como agora”, o primeiro-ministro garante que “há um ano a Saúde estava pior do que está agora”, e o deputado Miguel Guimarães explicou que listas de espera a crescer "significam mais confiança no SNS”.
O spin político permanente faz-nos até acreditar que Paulo Rangel luta pelo direito internacional contra a loucura de Donald Trump, e que o uso da Base das Lajes para os ataques ilegais ao Irão foram mediados por condições impostas pelo governo português. Apesar disso, sabemos que os aviões estadunidenses passaram pelas Lajes antes das suposta imposição de condições, e continuaram a passar depois.
Até agora, o ministério da Maquilhagem de Leitão Amaro só foi prejudicado por um ministro, diz-nos a reportagem da Visão. Fernando Alexandre exprimiu involuntariamente uma posição classista ao afirmar que as residências públicas para estudantes têm piores condições porque são para pessoas pobres. Agora, Leitão Amaro mostra uma “preocupação especial” com o que sai desse ministério.
Seja a comunicação de Leitão Amaro boa ou má (ainda se lembra do vídeo das mangas arregaçadas durante as tempestades?), o que se tornou óbvio é que a política desde Governo é sobretudo propaganda. Desse ponto de vista, o ministro da Presidência roubou uma página do livro de Carlos Moedas. Por isso, da próxima vez que ouvir falar de uma proposta de lei que gera um frenesim mediático, pense: o que é que Leitão Amaro está a tentar esconder?