Leiria foi terraplanada e o Governo mentiu

porFrederico Moura Portugal

01 de fevereiro 2026 - 15:18
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O Ministro da Presidência entretém-se no TikTok, reduzindo um ministério a uma competição de likes. Enquanto isso, os Leirienses não conseguem ligar para o 112 porque houve novamente uma falha de telecomunicações de dimensões bíblicas. O TikTok de Leitão Amaro funciona melhor que o SIRESP e que os geradores que ainda não chegaram a esta região.

O primeiro rascunho deste texto começou a ser escrito à mão à luz de uma lanterna. A tempestade que varreu a região centro destruiu infraestruturas e paralisou muitos concelhos. Enquanto Leiriense falo-vos do que vejo todos os dias: Leiria está irreconhecível. Fomos terraplanados e o Governo mentiu-nos.

Kristin varreu o centro do país, Leiria não acordou do pesadelo - continua a vivê-lo. Nas ruas vemos um cenário de guerra, mas em Lisboa vemos marketing digital.

Mais grave do que a violência sem quartel da intempérie é a resposta política que não existiu. A região centro foi abandonada por um Governo que nega a realidade.

Estamos sem eletricidade há dias. Começou a ser reposta nos centros urbanos e com falhas. Existem milhares de famílias e milhares de empresas estão sem energia, sem aquecimento e sem as condições mínimas de salubridade em vésperas de dias que se temem que sejam de cheias. A resposta que nos chega de Lisboa e do Governo é um brutal insulto à nossa inteligência coletiva.

O Ministro da Presidência entretém-se no TikTok, reduzindo um ministério a uma competição de likes. Enquanto isso, os Leirienses não conseguem ligar para o 112 porque houve novamente uma falha de telecomunicações de dimensões bíblicas. O TikTok de Leitão Amaro funciona melhor que o SIRESP e que os geradores que ainda não chegaram a esta região.

A comitiva composta por Marcelo Rebelo de Sousa e alguns membros do Governo, entre eles a Ministra da Administração Interna (que parece ter alergia em sair à rua) não nos veio ensinar nada - confirmou que o Estado falhou na resposta e não aprendeu nada com os incêndios de 2017.

A demora na declaração do Estado de Calamidade que a Lei de Bases da Proteção Civil prevê é inaceitável. É evidenciador da incompetência do executivo, mas a prova da irresponsabilidade do Governo é outra: A União Europeia está pronta a enviar geradores para Portugal, mas o pedido de auxílio ao abrigo do Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia ainda não seguiu por parte do Estado Português. A UE acaba de desmentir categoricamente o Governo.

Luís Montenegro e os seus ministros não percebem o que se vive em Leiria e nos restantes concelhos afetados. Não percebem a aflição de ligar o 112 e a chamada cair. O Governo mentiu-nos e o pedido de ajuda ter-se-á perdido nos intervalos dos tiktoks do Ministro Leitão Amaro.

Cada dia de atraso e de inação do Governo é uma sentença de morte para pequenos e médios empresários, para a economia da região e para as famílias. Não é um erro político, é um atentado. A tempestade que afetou a região centro e a falta de resposta em tempo útil (e a insistência em não mobilizar todos os meios à disposição) vão deixar cicatrizes profundas no tecido socioeconómico desta região. Há uma crise económica e social à espreita.

De igual modo é incompreensível que o Governo não tenha mobilizado ainda as forças armadas para aliviar os esforços da proteção civil na desobstrução de estradas e vias de comunicação. O silêncio de Nuno Melo, é negligente e é indigno, mas a irresponsabilidade não se esgota, porém, na gestão da catástrofe.

Ela começa antes. É estrutural e resulta de anos de subfinanciamento da Proteção Civil que deixaram o país desamparado e deixaram bombeiros e forças de segurança sem meio para chegar a tantos pedidos. ​

Os anos de negação da crise climática, e quem a nega, também não podem passar entre os pingos da chuva. A mão invisível do mercado não levanta postes de alta tensão nem corta as árvores que nos impedem as estradas. Não repara telhados nem tira a água das casas. O negacionismo climático mascarado de “preocupação” com a economia, porque ela não pode parar, resultou numa travagem brusca pela força da natureza. Preocupação com a economia é preocuparmo-nos com a proteção climática. O liberalismo fanático pelo estado mínimo e pela desregulação é co-responsável do caos climático, que destrói e mata.

Quando se corta na prevenção o resultado são operacionais exaustos e sem os meios necessários para o seu trabalho. Quando o Estado é mínimo, a ajuda é mínima.

Leiria foi terraplanada pela força do vento e agora está a ser humilhada pela inutilidade do Governo. O Luís não está a trabalhar e se o Governo não consegue garantir o básico então que saia da frente e deixe vir quem tenha competência para o fazer.

Frederico Moura Portugal
Sobre o/a autor(a)

Frederico Moura Portugal

Jurista. Pós-graduado em Direito da União Europeia. Mestrando em Comunicação.
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