O Governo vê nas exportações a tábua de salvação económica para o país, quando está a afundar a economia nacional com as suas políticas. Sendo as exportações um tema com relevância para a dinâmica económica, convém desmistificar algumas das afirmações que são repetidas até à exaustão, mas que a realidade denuncia as suas debilidades.
Em primeiro lugar, diz-nos a estatística que as exportações portuguesas aumentaram 15,7% em 2010 e repete José Sócrates estes números aos quatro ventos. O que não é devidamente indicado é que este crescimento diz respeito à comparação com o ano de 2009, que foi o pior ano das exportações portuguesas desde 2001. É o chamado efeito de base a que a opinião governamental não dá o devido relevo. Aliás, o desempenho das exportações em 2010 fica ainda bastante aquém do comportamento da economia no ano de 2008.
Um ponto importante é sempre a comparação entre exportações e importações. Também aqui há matéria relevante que é sonegada nas afirmações do Governo. As importações em 2010 também tiveram um aumento considerável de 10,7%. E, como se sabe, o ponto de partida da relação entre exportações e importações é o de uma balança comercial negativa para o país, tendo existido um agravamento em 414 milhões de euros no ano de 2010. Desta forma, a balança comercial atinge já uns alarmantes 20 000 milhões de euros. A análise particular do mês de Dezembro de 2010 permite conclusões ainda mais pessimistas: se excluirmos combustíveis e lubrificantes, a evolução homóloga deixa preocupações porque o aumento das importações (18,4%) é superior ao aumento das exportações (17,2%).
A análise do conteúdo das nossas exportações demonstra outros dados relevantes. O aumento das exportações foi muito influenciado pela conjuntura internacional, algo que pode mudar a qualquer momento e não representa nenhuma alteração estrutural da economia portuguesa. É principalmente devido às alterações internacionais dos preços das matérias-primas que se deve este desempenho. Foi na categoria dos produtos energéticos que esteve a base desse aumento, devido a dois factores principais: em primeiro lugar porque Portugal exporta parte da sua refinação petrolífera após ter comprado o petróleo no exterior e, em segundo lugar, porque também chegamos a exportar parte da energia eléctrica produzida no país, o que acontece muitas vezes abaixo do preço de custo. Se avaliarmos apenas o comércio extra-comunitário as conclusões são semelhantes, pois o aumento se deve principalmente às Categorias de Combustíveis Minerais e Metais Comuns. Sobre a qualidade das nossas exportações também devemos incluir o facto de em 2010 a balança tecnológica do país ter voltado ao vermelho, demonstrando que importamos mais tecnologia e inovação do que conseguimos exportar, caindo por terra um dos outros pontos da propaganda do Governo.
Mas, a realidade tem ainda uma outra vertente mais negra que decorre das escolhas do Governo. Sabe qual é a empresa que mais exporta em Portugal? Tem 4 funcionários, três vezes o orçamento do Ministério da Agricultura e exporta mais do que a Autoeuropa; Está inscrita como empresa de consultadoria, mas dedica-se à compra e venda de mercadorias; Tem um volume de vendas superior a 3 000 milhões de euros e não paga impostos. Chama-se Wain Fleet e está sediada no offshore da Madeira. É o exemplo de como o desempenho das exportações não é necessariamente sinónimo de mais emprego e mais receita para o Estado.
Deixo uma última pergunta que coloca a preocupação de quem sente que o principal problema do país é a ausência de resposta que centenas de milhar de portugueses têm nas suas vidas: Como se pode embandeirar em arco com as exportações e dizer que a solução está à vista, quando os números do desemprego nos dizem que as dificuldades se alastram pelo país? A resposta é simples, com o mal que as políticas económicas de José Sócrates fazem ao país, mergulhado na austeridade do bloco central, não há dinâmica económica que resista.