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Jornalismo, política e polarização

Os jornalistas estão cada vez mais limitados na sua independência e são alvos de pressões diárias das chefias e administrações que controlam o eles escrevem, reportam, de acordo com os projectos políticos, económicos e modelos de negócio.

Há dias numa rede social alguém expressava uma ideia que era se os jornais que comprovadamente publicam noticias falsas e fizeram disso manchete, não deviam devolver o dinheiro pago pelos leitores. Incluía também as televisões que foram atrás da “cacha” do “Expresso”, embora isso seja menos prático.

Com menor ou maior dose de ironia, entrámos definitivamente num terreno em que o jornalismo dito de referência, de qualidade, que é (ou era) de confiança dos seus leitores, ouvintes, telespectadores é cada vez mais posto em causa. E isso, o debate, a critica, não é necessariamente mau. Urge fazer, houve inúmeras tentativas, designadamente por parte do Conselho Deontológico e do Sindicato desde 1997, para não recuar mais no tempo. No último Congresso de Janeiro do ano passado, tocou-se “na ferida”, durante três dias debateram-se intensamente questões de ética e deontologia, rigor, o papel dos jornalistas.

Mas muitos não respeitam os compromissos sufragados por larga maioria e pela mensagem de uma reunião magna destinada a salvar uma profissão à beira da implosão. Têm-se acentuado as más práticas. Diariamente. Discute-se por estes dias o colossal “erro” da redacção do “Expresso” e do “Observador”, assumido pelas direções editoriais que, contudo, defendem a justeza e os métodos da investigação, pesquisa do trabalho dos seus jornalistas. Normal. Como editor/diretor faria o mesmo.

O erro, a credibilização das fontes “próximas, próximas/bem colocadas/oficiais”, é comum, e a nossa comunicação social está cheia de casos. O “Washington Post” quase sofreu uma hecatombe no final dos anos 1970 quando descobriu que uma reputada jornalista do seu quadro tinha investigado uma “estória” comovente. Foi publicada. Era uma mentira do início ao fim.

O “Expresso” podia ter publicado o que sabia, com o cruzamento das tais “fontes”, com o material recolhido em semanas, e não sabemos, nunca saberemos, o que realmente falhou, além das explicações dadas no seu Editorial. Se tinham assim tantas dúvidas, tecnicamente, nunca deviam ter feito aquela manchete. Era um dever de ética e deontologia plasmado no Código. Além disso, um dos problemas comuns à nossa imprensa é uma crescente e excessiva editorialização dos títulos que não obedece aos critérios do rigor, antes ao efeito que se pretende atingir, ou comercial, às vezes numa tabloidização que a empobrece, ou…política.

As fontes podem ter tido claros objectivos políticos e outros obscuros em assumirem-se como “fidedignas” e podem até ter uma relação de confiança de vários anos e serem bem conhecidas dos jornalistas envolvidos no caso da escolha do(a) novo(a) PGR. E nesse circuito tudo é possível. “Não sabemos”, como escreveu José Ferreira Fernandes, respeitável decano do jornalismo que dirige o “DN”. Mas mesmo neste caso, nunca devem ser divulgados os nomes das fontes, os jornalistas do Expresso não o farão nem eu. Isso só acontece em regimes totalitários nas tipologias tão bem definidas por Hannah Arendt. O Código Deontológico abre uma única excepção para casos judiciais, a tais informações falsas: “O jornalista deve usar como critério fundamental a identificação das fontes. O jornalista não deve revelar, mesmo em juízo, as suas fontes confidenciais de informação, nem desrespeitar os compromissos assumidos, exceto se o usarem para canalizar informações falsas. As opiniões devem ser sempre atribuídas”.

Há dias um “jornalista”/comentador/analista, afirmava categoricamente que o CD “obriga” os jornalistas a revelarem as suas fontes…a quem? A Marcelo Rebelo de Sousa? A António Costa?

Mas este pensamento não é isolado e está a espalhar-se no espaço mediático num crescendo de intolerância, e de quase “caça às bruxas” de rotular os jornalistas de estarem ao serviço do “grande capital”, ou dos lóbis das corporações, ou do Estado, etc.

Já me faz lembrar certas conjunturas que vivi em três décadas, de uma sede de vingança e tentativas do Poder para condicionar a actividade dos jornalistas, das maneiras mais ínvias. Não vivi profissionalmente os tempos do Bloco Central, mas há inúmeros testemunhos de casos graves, do cavaquismo, e já para não falar da permanente relação conflituosa de um certo político com os jornalistas que não eram do “respeitinho”. Nunca houve um governante a processar tantos jornais e jornalistas e também a perder tantos processos…

Claro que existe uma prevalência de certos jornais, uns de forma mais directa outros menos, são editorialmente de direita, ultraliberais não só na sua produção noticiosa diária, mas na escolha dos articulistas de serviço.

Claramente o verão ficou marcado por notícias falsas e casos fabricados, na sequência da notícia do Jornal Económico sobre o ex-vereador Ricardo Robles, que visaram imediatamente a seguir envolver  Catarina Martins, (“Eco”) num beirão “negócio de turismo de habitação”. O “Sol” mentiu com a mesma infâmia em relação ao deputado socialista João Galamba. E mais episódios são de esperar, avisou Francisco Louçã no Fórum Socialismo.

Mas não levanto por razões de ética profissional quaisquer suspeitas sobre os homens e mulheres trabalhadores da comunicação social portuguesa. Razões de solidariedade também. Estão entre as profissões mais exploradas e flageladas pelo mercado de trabalho das regras da troika que o PS teima em manter. Um terço ganha menos de 900 euros ilíquidos. Na televisão e rádio públicas há 170 precários!

Os jornalistas estão cada vez mais limitados na sua independência e são alvos de pressões diárias das chefias e administrações que controlam o eles escrevem, reportam, de acordo com os projectos políticos, económicos e modelos de negócio.

E isso explica muito do que se está a passar, mas não isenta de desculpas e não retira a exigência da auto-crítica dos jornalistas, muitas vezes assumem-se numa lógica corporativa acima de qualquer direito de crítica ou interpelação sobre os seus deveres e a responsabilidade social inerente ao seu trabalho de “mensageiros”.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista, Ex-Editor Assuntos Internacionais da RTP Antena 1
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