Je Suis Curdistão

porBruno Candeias

09 de janeiro 2023 - 18:22
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Passam hoje 10 anos do assassinato de três ativistas Curdas, em Paris. No caso, o suspeito estava ligado aos serviços secretos Turcos e uma das vítimas era Sakine Cansiz, co-fundadora do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e a principal representante do Movimento das Mulheres Curdas.

Há poucos dias o mundo acordava com a notícia de um ataque que ceifou a vida a três Curdos, em Paris. A comunidade Curda ligou de imediato o ataque ao regime Turco. Passam hoje 10 anos do assassinato de três ativistas Curdas, em Paris. No caso, o suspeito estava ligado aos serviços secretos Turcos e uma das vítimas era Sakine Cansiz, co-fundadora do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e a principal representante do Movimento das Mulheres Curdas. A “questão curda” voltara, intimamente ligada ao regime turco e ao PKK e não é ao acaso…

Desde a antiguidade, que as “terras curdas” têm sido palco de intensos conflitos e disputas territoriais no Medio Oriente.

Após a Primeira Guerra Mundial, com a queda do Imperio Otomano, o Tratado de Sevres abria portas para um Curdistão autónomo, um Estado-nação. A pretensão deste povo, seria, entretanto, rejeitada por uma Turquia alinhada com as potências imperialistas emergentes, traído pelo Tratado de Lausanne o Curdistão via o seu território dividido por quatro países (Síria, Turquia, Irão e Iraque), uma população estimada em 40 milhões, sem país. Daí em diante, escalou a repressão cultural, étnica e institucional exercida pela Turquia, sobre quem continuou a luta pela autodeterminação. Foi também aqui que se iniciou o conflito armado.

No final da década de 1970 os conflitos políticos na Turquia entre a direita nacionalista e a esquerda estavam a ferro e fogo, em 1978 era fundado o PKK, liderado por Abdullah Ocalan. O PKK é das poucas organizações, curdas e de esquerda, que sobrevivem à brutal perseguição e opressão depois do Golpe Militar, período em que reforça a sua influência e enraizamento regional. A disputa pela hegemonia politico-ideológica abria desde então uma nova página no conflito.

A formação marcadamente marxista-leninista, pretendia ser uma frente popular capaz de concretizar uma revolução proletária, engajada pelo objetivo da libertação nacional do jugo imperialista e colonial. Privada de liberdade num período de grande repressão, rapidamente passou à resistência de guerrilha, até ao final da década, onde se iniciam intensos processos de redefinição interna. Contudo, é no final dos anos 1990 que se concretiza a maior mudança. Em 1999 Ocalan é capturado com a ajuda dos EUA e condenado à pena de morte, passando mais tarde à prisão perpétua, sem qualquer contacto exterior, o que não evitou que as suas indicações fossem determinantes no 7º Congresso do PKK. Neste Congresso, tem lugar o afastamento do marxismo-leninismo, que “continuando a insistir na criação de um Estado-Nação, tornaria impossível superar o capitalismo”, a desilusão com o “socialismo de estado” dava lugar ao Confederalismo Democrático, influenciado pelo anarquista Murray Bookchin (teórico da ecologia social e do municipalismo libertário).

As suas ideias influenciaram o movimento curdo em toda a região, em particular a atual experiência política em Rojava (Curdistão Sírio), onde está em curso a criação de um sistema “verdadeiramente livre”, onde prevalece a democracia popular de base, a autogestão assente em comunas, feminista e ecológica, onde se assume a necessidade de estruturas de autodefesa.

Com o partido ultraconservador de Erdogan no poder, a Turquia terá iniciado nos anos 2000 negociações de paz com Ocalan, sem sucesso. Pouco tempo depois o PKK foi considerado uma organização terrorista pelos EUA e a União Europeia, ainda que o PKK tenha deposto as armas, cessado a guerrilha e reconfigurado a sua orientação política e organizativa. A hipocrisia do norte global beneficia o regime de Erdogan, numa legitimação internacional para a intensificação nacionalista e reforço do poder interno, num país que terá hoje, cerca de 20% de curdos.

Rojava, experiência saída do rescaldo da guerra civil Síria em 2012, onde se travou uma importante batalha contra o Estado Islâmico, sob liderança das Unidades de Proteção Popular (YPG), braço armado do PYD (partido irmão do PKK), e o determinante contributo da YPJ (Unidade de Proteção das Mulheres) constituída apenas por mulheres guerrilheiras, não só um lugar de emancipação como uma centelha de rebeldia, perante a opressão patriarcal vivida no Medio Oriente. Rojava, constituiu uma determinante peça de xadrez neste mosaico complexo da geopolítica. Uma região comprimida, entre o norte da Síria e a fronteira turca, que tem sido profundamente militarizada pelo regime turco, com recentes bombardeamentos a civis, depois de Erdogan reforçar a sua posição interna na NATO, chantageando a Suécia e a Finlândia, fazendo depender a sua entrada na Aliança Atlântica do fim do acolhimento e apoio a ativistas curdos e do PKK.

A demonização dos “terroristas” é o combustível para a sobrevivência política de Erdogan, que recorre sucessivamente à violação dos direitos humanos para obter os seus objetivos: reforçar o poder, muscular o regime fascista e esmagar a Revolução de Rojava.

É a este triste espetáculo que a comunidade internacional, a União Europeia e “tão boa gente” assiste, com o silêncio que tudo permite contra este “povo das montanhas” que ousou lutar pela autodeterminação e liberdade cultural, ser de esquerda e construir uma experiência que renuncia às instituições de Estado, com uma política outra e de baixo para cima.

Cabe-nos a nós internacionalistas, quebrar o silêncio e lutar a seu lado!

Bruno Candeias
Sobre o/a autor(a)

Bruno Candeias

Operador Industrial.
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