Não tarda chegará 2013. Esse futuro próximo que depressa se tornará presente tornará possíveis muitos impossíveis, aquilo que achávamos não poder vir a acontecer. A certeza das vidas tão difíceis que se avizinham ensina-nos que a história não é feita de irreversíveis. Mas a ação humana é também imprevisível e, por isso, pela promessa da política, recuso-me a fazer aqui balanços ou projeções. 2013 será também a medida da nossa ação.
E porque durante a quadra de Natal, crentes ou não crentes, entramos num modo de suspensão, permito-me bater as palmas, quebrar o feitiço e deixar aqui a minha indignação:
Recentemente, o novo presidente da Associação das Empresas do Setor Privado de emprego (APESPE), a coletividade das Empresas de Trabalho Temporário (ETT), Joaquim Adegas, deu umas entrevistas para espalhar a boa nova de que encontrou a solução para o desemprego e esta está exatamente no seu ramo de negócios. Não se trata de desfaçatez. É um insulto.
O patrão das ETT explicou à imprensa que durante este ano, 3/4 das colocações do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), instituto público, foram feitas através de empresas de trabalho temporário, que pertencem ao sector privado. De acordo com dados do IEFP, no primeiro semestre de 2011, foram registadas 146.975 cedências para um total de 95.986 trabalhadores, o que significa um aumento de 8,5 por cento do recurso ao trabalho temporário face ao período homólogo de 2010 e uma média de 803 colocados diariamente.
Apesar de ainda não ter disponíveis dados atualizados relativos a 2012, Joaquim Adegas sublinhou que, em 2010, as empresas de trabalho temporário empregaram “mais do dobro” das pessoas do que o IEFP e por isso propõe ao governo que subcontrate parcialmente a colocação dos desempregados que é feita pelo serviço público.
Quantas pessoas voltaram ao desemprego é um número não revelado mas é um número-chave que a APESPE num tornará público. Estaria a confirmar aquilo que todos já sabemos. De qualquer modo, as palavras de Sr. Adegas esbarram numa realidade que até é quantificada pela sua própria associação (ingenuidade ou arrogância?) e que indicam sem ambiguidades a extrema instabilidade a que os trabalhadores temporários estão votados e que a máxima precariedade caracteriza os vínculos e os salários. Aliás, estes trabalhadores nunca chegam a sair de um círculo vicioso que roda, numa vertigem acelerada, em torno de contratos temporários e desemprego.
Assim, a própria APESPE, que considera, nas palavras do seu Presidente, que a solução para o desemprego está no trabalho temporário, informou que a duração média dos contratos baixou para 4 meses e ainda especificou que “algumas [pessoas] foram colocadas mais do que uma vez no mesmo posto”, chegando por isso a 280 mil as “cedências” feitas por estas agências. “Mais do que uma vez no mesmo posto”?! Mas isto não é ilegal? Claro que é, mas no país das impunidades, a confissão no espaço público é apenas silêncio ou um pequeno ruído que já passou.
Sabemos que o desemprego é a fonte do negócio das ETT’s. Em tempos de crise, o lucro do sector situa-se nos 900 milhões de euros, mas os salários pagos por estas empresas (que ‘captam’ uma parte desse salário pago pela empresa à qual são “cedidos” os trabalhadores) já baixaram em média 25 por cento desde a entrada da Troika, em 2011.
Até Vitalino Canas, o provedor do trabalho temporário pago pelos patrões das ETT, admitiu recentemente: "O trabalho temporário tem algumas vantagens reconhecidas, mas em situações de crise os trabalhadores temporários ficam particularmente vulneráveis, não só porque são os primeiros a ser despedidos, como também aceitam mais facilmente a perda dos seus direitos".
Alguém tem de explicar ao patrão das empresas de trabalho temporário que a sua boa vontade não aquece os corações dos trabalhadores precários e desempregados, nem mesmo quando expressa em plena quadra de Natal.