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Incêndios: interesses, mentiras e vigarices

O governo deve ser responsabilizado pela sua incúria em não atuar numa prevenção forte face aos incêndios florestais e em não apoiar devidamente as populações. As promessas governamentais não concorrem para modificar o rumo das alterações climáticas.

Todos os anos é a mesma coisa: a saga dos incêndios rurais que devastam as florestas, os campos e as culturas de norte a sul do país, levando a destruição e a misérias a muitos lares e comunidades e deixando um país cada vez mais desertificado no interior. O crescente aquecimento global fruto das alterações climáticas têm a sua quota de responsabilidade na deflagração dos incêndios, outra parte é ateada por mãos criminosas ao sabor de variados interesses, como de alguns madeireiros sem escrúpulos, que não olham a meios para atingirem os fins, que é o lucro a qualquer preço.

Mas a maior responsabilidade tem de ser assacada aos governos que temos tido, governos PS e PSD/CDS. Este ano já são mais de cem mil hectares de área ardida, onde se inclui uma grande mancha florestal da Serra da Estrela – uma verdadeira tragédia. Não se aprendeu nada com os grandes incêndios de Pedrógão Grande, do Pinhal de Leiria, ou de Monchique. Nos últimos cinco anos os governos PS não gastaram um cêntimo para prevenir os fogos florestais. São precisos mais investimentos nesta área.

Há alguns anos o Bloco de Esquerda propôs alterações à lei para limitar a área do eucalipto e para que se criassem unidades de gestão florestal, mas “quase nada” foi feito a seguir aos grandes incêndios de 2017, evitando que estas tragédias se repetissem no futuro. Os grandes interesses, as mentiras, as vigarices, a incúria e o desprezo pelas populações e pelo interior do país falaram mais alto. Os governantes não querem saber do povo, nem do país, olham apenas para o seu umbigo, para as negociatas e para os critérios economicistas.

Antes de chegar a época dos incêndios é preciso apostar numa prevenção forte, capaz de nos facultar um outro território, com equipamentos, serviços e gente no interior, mais sapadores florestais e vigilantes da natureza, contratar mais gente, carreiras dignas. Os bombeiros precisam de ser valorizados e melhor remunerados, melhor equipados e apostar na sua profissionalização.

Os planos de reflorestação ou não existem, ou avançam a “passos de caracol”, os apoios foram escassos e não chegaram a quem mais precisava, não há apoios para os pequenos proprietários para a limpeza de florestas, as unidades de gestão florestal ficaram esquecidas na lei. Quando ocorrem os incêndios as autoridades prometem apoios e reparações às populações, mas quando o assunto desaparece das televisões a esmagadora maioria das famílias não chega a receber qualquer apoio. Foi o que se passou, por exemplo, nos grandes incêndios de 2017 e de Monchique, em 2018.

Não bastam os relatórios, estudos e observatórios, é preciso passar à prática e fazer investimento público a favor de uma floresta mais resiliente e melhor ordenada. As alterações climáticas aí estão e vieram para ficar. O governo deve ser responsabilizado pela sua incúria em não atuar numa prevenção forte face aos incêndios florestais e em não apoiar devidamente as populações. As promessas governamentais não concorrem para modificar o rumo das alterações climáticas.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em História Contemporânea.
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