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Identidades (in)convenientes. O Ano Novo de Colónia

Não será a banalizar, a relativizar, a negar ou a ignorar a gravidade do que aconteceu em Colónia, nem a lançar insinuações lamentáveis sobre a credibilidade das mulheres atacadas, que se irá combater o racismo e a xenofobia crescentes por toda a Europa.

Vi então uma rapariguita. Lembro-me que tinha cabelos loiros compridos. Estava lavada em lágrimas, tinha os collants rasgados, a saia de lado, estava totalmente arrasada.”

(“Ich habe noch nie so viele heulende Frauen gesehen”, Süddeutsche Zeitung, 5-1-2016).

Jovens louras violadas por homens de pele mais escura foram uma imagem predileta de nacionalistas, racistas e anti-semitas alemães ao longo do século XX. O debate interno alemão em torno da chamada “crise migratória” deu nova vitalidade à imagem. Quem está a par do que vai circulando pelas redes sociais sabe que se têm acumulado boatos e rumores sobre ataques e atos de violência sexual supostamente perpetrados por refugiados: a criança loura espancada porque os imigrantes não gostam de olhos azuis (a foto, todavia, já circula há alguns anos na net e numa a criança é até apresentada como vítima de um rotweiler); a rapariga brutalmente violada por vários árabes perto de um centro de acolhimento; e sempre a mesma acusação à comunicação social de abafar tais atos e difamar de racistas quem deles ousa falar.1 Estas afirmações não são novas, desde há muito que o árabe tende a ser visto por uma certa Europa como uma masculinidade violenta, um agressor sexual potencial. No seu manifesto, o terrorista de extrema-direita Andres Breivik também falava da suposta vaga de violações de mulheres escandinavas por imigrantes muçulmanos.

Não é pois de estranhar que algumas reações às primeiras notícias sobre os acontecimentos da noite de Ano Novo em Colónia tenham sido de cautela (para não dizer desconfiança). Os relatos de ataques sexuais acompanhados de roubos por parte de centenas de homens de “aspeto árabe” a mulheres alemãs pareciam encaixar demasiado bem nas fobias que têm acompanhado o debate interno alemão desde que Merkel, no verão, se mostrou disposta a receber refugiados sírios, entrando em rota de colisão com setores do seu partido e parte do seu eleitorado. Para aquela população que se diz preocupada com segurança das “nossas raparigas” perante a vinda de tantos homens jovens de uma cultura tão diferente estas notícias pareciam ser a prova por que tanto ansiavam. Desta vez não era o “diz-se que”, o rumor sem fundamento, desta vez havia centenas de testemunhas dispostas a falar. Os movimentos anti-imigração de natureza xenófoba e islamofóbica foram de facto até ao momento quem mais beneficiou dos acontecimentos. Pegida auto-proclama-se agora como movimento de defesa das mulheres. As críticas à política de acolhimento a refugiados aumentam drasticamente de tom. Anunciam-se medidas para acelerar e facilitar a extradição de requerentes de asilo condenados. É bem provável que a islamofobia e os atos de violência para com os imigrantes de pele escura e “aspeto muçulmano” se alastrem e aumentem nos próximos tempos. Para quem se tem batido por uma política de acolhimento humanitária estas notícias poderão ser um golpe mediático fatal, aquele evento capaz de decidir para que lado a maioria da população se volta, o momento que irá obrigar Merkel a vergar-se definitivamente ao seu partido.

Até ao momento, com centenas de queixas formalizadas por roubos e ataques de natureza sexual (entre eles duas violações), não se poderão desvalorizar os acontecimentos como “meras escaramuças” de uma noite de passagem de ano regada pelo álcool. É possível que o roubo tenha sido o móbil da maioria dos ataques, é possível que a maioria dos agressores faça parte de bandos do crime organizado que atuam habitualmente em estações alemãs. Ainda que esteja por apurar o número exato de vítimas, de agressoras e a origem de todos eles, parece haver unanimidade num ponto: o fenómeno não é inédito, já se deu noutras festividades com homens de origem alemã, mas atingiu em Colónia dimensões até então desconhecidas.

Recusando que os direitos das mulheres se tornem arma de propaganda nas mãos de movimentos xenófobos, ou pretexto para um diálogo simbólico entre homens sobre “as nossas mulheres”, várias vozes lembram corretamente que a maior parte da violência sofrida pelas mulheres na Alemanha não vem de árabes ou muçulmanos, mas de homens de origem alemã em situações de violência doméstica. É a tentativa de recolocar a discussão onde ela deverá sempre ser debatida: os direitos das mulheres. Lamentavelmente algumas vozes ainda tentaram desmontar o potencial de explosão xenófoba dos eventos de Colónia de forma duvidosa com insinuações de que tudo poderia não ter passado de uma escaramuça enfabulada por raparigas com alguma imaginação (e assim se vê como as teorias da histeria feminina continuam de boa saúde sempre que convém desacreditar mulheres que se dizem alvo de ataque sexual). Não menos lamentáveis foram as afirmações da presidente da câmara de Colónia aconselhando as mulheres a manterem distância física de estranhos (só lhe faltou dar conselhos sobre o vestuário e o consumo de álcool...).

É certo que podemos ver na mediatização dos acontecimentos de Colónia mais um exemplo do eurocentrismo da comunicação social: enquanto os noticiários repetem a história das “alemãs apalpadas”, pelo mundo fora outras mulheres são violadas, torturadas e assassinadas diariamente, sem que a imprensa mostre grande interesse. É também certo que o fortíssimo impacto destes acontecimentos se prende com a identidade étnica dos agressores e as suas consequências para o debate em torno da política de asilo que tanto tem dividido a sociedade alemã. Por isso, não é exagerado afirmar que a grande visibilidade dos acontecimentos não pode ser dissociada do seu potencial como arma de arremesso para contestar a presença de comunidades de confissão muçulmana no país. E, no entanto, não será a banalizar, a relativizar, a negar ou a ignorar a gravidade do que aconteceu em Colónia, nem a lançar insinuações lamentáveis sobre a credibilidade das mulheres atacadas, que se irá combater o racismo e a xenofobia crescentes por toda a Europa. Muitos menos será assim que se irá lutar contra a violência contra as mulheres noutras partes do mundo. De facto, a única coisa que a indiferença pelos acontecimentos sinalizará é uma implícita aceitação de que o espaço público seja uma zona de perigo para as mulheres, um lugar onde estas devem contar com o insulto, a agressão e mesmo a violação.


1 Matthias Bartsch, Anna Clauss, “The Case of the Murdered Goats: Exploring Germany's Far-Right Rumor Mill”, Spiegel Online International, 05-01-2016.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora do Centro de Estudos Sociais, onde integra o Núcleo de Humanidades, Migrações e Estudos para a Paz.
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