Escusado será dizer (neste caso, escrever) que cada palavra ou expressão tem um significado ou conjunto de significados. Por exemplo, afirmar que, entre 2015 e 2019, Bloco, PCP e PEV governaram ou estiveram coligados com o PS é muito diferente de afirmar que fizeram parte de uma maioria parlamentar assegurada por acordos de Legislatura bilaterais com o PS - aliás, a primeira afirmação é falsa, a segunda verdadeira.
Porém, constatar o que é escusado escrever é um importante ponto de partida para este artigo. Porquê? Ora, simplesmente julgo que é bom lembrar a relevância da organização e do rigor na construção lógica e argumentativa, tendo em conta a frequência preocupante com que me deparo com atalhos semânticos perigosos ou recurso a figuras de estilo que facilmente aparenta diluir as fronteiras entre excentricidade retórica e afirmação literal.
Em particular, a minha preocupação dirige-se à linguagem no discurso, no debate e no mediatismo políticos. Tendo consciência de que temos um sistema de Educação que não se foca na formação para a cidadania e considerando que, globalmente, são poucos os fóruns de discussão e informação públicos por iniciativa de órgãos representativos ou executivos do Estado, qualquer bocadinho de caos semântico ou conceptual corrompe o que deveria ser exposição ou confronto saudavelmente democráticos de informação, posições, ideias, perspetivas.
Esta realidade tóxica é tão profunda e natural que se reflete até no simbolismo e na nomenclatura (formais ou informais): do Partido Socialista e do Partido Social Democrata cujas ações e perspetivas políticas de fundo não correspondem aos respetivos nomes; da classificação irrefletida de Bloco e PCP como "extrema-esquerda" e consequente equiparação ao Chega, como se, em traços gerais, dois partidos que têm como centro da ação política a defesa da garantia de direitos sociais e laborais formassem um conjunto de "extremos" de toxicidade equivalente com um partido que faz bandeiras do racismo e do ataque aos sectores mais vulneráveis da sociedade; do uso passado de "arco da governação" para referir o conjunto PS/PSD/CDS, como se admitindo que numa democracia fosse legítimo reservar a legitimidade para governar a um pequeno grupo de forças partidárias; do famoso "marxismo cultural", sem adesão à realidade, mas com grande peso na expressão político-filosófica de grupos e organizações de extrema-direita e com alguma presença em espaços tradicionais do Centro-Direita e da Direita.
A expressão política plural é feita de debate, aproximações e afastamentos, princípios e cedências, mas em tudo isto há um pressuposto que deveria ser universalmente respeitado: cada entidade tem direito à sua opinião, não aos seus próprios factos e semântica
A linguagem tem influência na distribuição de peso das diferentes perspectivas políticas na opinião pública. Não será por acaso que muitas referências no discurso de figuras e partidos à Direita tentam associar o conceito de socialismo à governação do Partido Socialista (sobretudo às suas falhas) como forma de atacar todo um espaço político, ignorando ou desconhecendo a verdadeira identidade ideológica do PS e a sua distância significativa a qualquer corrente imaginável de socialismo. Não ajuda o facto de grande parte da comunicação social ir na onda dos atalhos semânticos perigosos, como fazer uso da expressão "governo socialista" em vez de "governo do PS" ou de qualquer falsa equivalência do mesmo género.
Em momento de discussão sobre o Orçamento de Estado (OE), a distorção e a manipulação semânticas em praça pública são evidentes: o termo "crise política" - à boleia da postura impulsiva do Presidente da República, de grande parte dos cabeçalhos de notícias sobre o OE e de vários espaços de comentário político televisivo - parecia inevitável em qualquer análise antes sequer das reuniões entre Governo e os partidos à sua Esquerda para ainda tentar viabilizar o OE. E por aí, misturando comparações absurdas com a situação do chumbo do PEC IV em 2011 e leituras pouco rigorosas de sondagens eleitorais, vai sendo reforçada a ideia de que a responsabilidade de mais um plano de “crise” seria, entre maioritariamente e totalmente, culpa dos partidos à Esquerda do PS - quando, fundamentalmente, foram opções do PS e do Governo que conduziram a este cenário de impasse: da rejeição de um acordo para Legislatura com o Bloco à inflexibilidade na negociação para aceitar medidas elementares, coerentes com o espírito inicial dos acordos parlamentares da Legislatura anterior e com a retórica de que se serviu o PS de reversão da intervenção da troika, de valorização do SNS e de reforço de e justiça no Estado Social.
A expressão política plural é feita de debate, aproximações e afastamentos, princípios e cedências, mas em tudo isto há um pressuposto que deveria ser universalmente respeitado: cada entidade tem direito à sua opinião, não aos seus próprios factos e semântica. É urgente que o debate político em todos os meios o assuma sem facilitismos ou desleixo e que a comunicação social zele por esse ideal - a força e saúde da nossa democracia dependem disso.