Hoje os noticiários relatam a vitória futebolística da seleção portuguesa conseguida ao derrotar a campeã europeia, a Espanha. Exatamente, quase na véspera do dia em que se celebra Portugal. Dou comigo a pensar que todos os dias deveriam ser dias da seleção portuguesa, sabem porquê? Porque nestes dias, estamos todos juntos a desejar a vitória que projete o país, mas também porque, e bem, não discriminamos os jogadores em função da cor da sua pele. Se formos ver as suas origens, a maior parte vem de bairros pobres, onde a desigualdade e a miséria eram o seu dia a dia. Ao Nuno Mendes ou ao Rafael Leão ninguém lhes gritou depois do jogo “Vai para a tua terra”! Assumimo-los como nossos, como portugueses, porque o seu valor na equipa e na vitória, é inquestionável!
30 anos depois do assassinato de Alcindo Monteiro o país recusa-se a assumir o seu racismo estrutural e tem hoje na Assembleia da República quem tudo faça para que ele se reforce, sobrecarregando os imigrantes com as razões de tudo o que não funciona cá dentro. Têm saído estudos que provam o contrário, que demonstram que nos fazem falta, mas a cegueira provocada pelo ódio recusa qualquer argumento que se oponha à certeza assumida como única verdade. Revelam-se sem temor defensores do antigo regime, porque antigamente é que era bom, esquecendo que a ditadura impediria a diferença de opinião, perseguiria quem a ela se opusesse, que se afirmava junto das elites sendo o poder e a riqueza distribuídos entre as grandes famílias endinheiradas, não sendo permitida à classe trabalhadora o acesso a uma vida desafogada, digna, e tendo total desproteção na saúde ou no desemprego! Era o país dividido entre os que tinham de sobra e os que a nada conseguiam aceder… E que alimentavam com os seus filhos a máquina da guerra colonial, com todos os custos humanos que isso implicava!
A resposta à esquerda terá que procurar estabelecer pontes, avaliar o que correu bem e o que correu mal, como chegámos aqui, certamente cuidar da forma como a mensagem é enviada para que ela seja entendida por quem a recebe, olhar profundamente para o movimento social, encontrar nele caminhos de solidariedade que nos tragam a esperança de sonharmos com um Portugal idêntico ao que acontece em dias em que a seleção joga e ganha: unidos no que importa, na luta por uma vida digna!
Sei que este é um caminho difícil pois há muita desconfiança, sectarismo entre nós, há diferentes lutas em que não estaremos coesos, mas o tempo é de procurar o que nos une, reforçá-lo, criar mobilização popular, mas sobretudo ouvir e debater, ter disponibilidade para ouvir as críticas e animar espaços em que a relação de pertença seja a prioridade!