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Grilos de Papel

O risco de cisão do Movimento 5 Estrelas em várias componentes é cada vez maior e alguns dos eleitos/as já abandonaram o grupo parlamentar, engrossando o grupo misto dos independentes.

As últimas legislativas em Itália confirmaram várias tendências: o desaparecimento da esquerda radical, a resistência de Berlusconi, a imparável atracção do centro esquerda para a direita e uma escalada eleitoral do Movimento 5 Estrelas (M5S), sigla mais votada para o parlamento, tendo ficado em segundo na corrida ao Senado.

Não é fácil explicar estes resultados. Com uma agenda orientada para a criação de uma “democracia directa” baseada na internet, questões ambientais e o decrescimento económico, o M5S conseguiu uma votação expressiva da classe trabalhadora e de camadas jovens normalmente alheadas da política, um fenómeno visto como um grito de “vão se lixar!” e de revolta contra o “partidarismo” e a “casta”.

O descrédito que a política italiana enfrenta – para o qual contribuiu, num passado recente, a esquerda radical -, uma lista de caras desconhecidas escolhidas na rede (muitas delas só se encontraram quando se sentaram no parlamento) e a habilidade comunicacional de Grillo, portador de um discurso eivado de populismo contra o sistema e os políticos, ajudaram ao sucesso.

Não faltou por aí quem apontasse o exemplo de transparência, de radicalismo, de prática democrática e de coragem do M5S. Mas o tempo tratou mais uma vez de mostrar que quem fala do que não sabe e se cola à primeira imagem “anti sistema” que lhe surge, corre o risco de ficar mal na foto.  

Na verdade, o M5S é uma marca registada, propriedade do comediante Beppe Grillo e de Gianroberto Casaleggio, um guru da Internet que será o mentor da ideia. As suas regras estão no “Estatuto”, documento sagrado escrito pelos donos, e as decisões, quando submetidas a escrutínio, são ditadas por votações online onde a discussão é limitada e poucos têm de dar a cara para assumir as decisões do colectivo.

O crescimento e a chegada de novos actores ao palco do Movimento, veio acentuar algumas tensões e contradições já notadas na sua curta experiência autárquica. O verniz estalou quando a consciência de alguns deputados os levou a viabilizar a única opção decente ao candidato corrupto de Berlusconi para a presidência do parlamento. Grillo expressou publicamente a sua fúria contra os traidores, pois advogava que dava igual eleger um corrupto de direita ou alguém que, oriundo do centro esquerda, não está sob suspeita.

E os problemas não ficaram por aqui. Nas últimas semanas, surgiram vários os conflitos em praça pública, em torno de fundos, divergências e presença sem autorização de eleitos na comunicação social, que acabam invariavelmente com Grillo a abrir a porta de saída e a destratar publicamente o outro lado da contenda.  O risco de cisão do Movimento em várias componentes é cada vez maior e alguns dos eleitos/as já abandonaram o grupo parlamentar, engrossando o grupo misto dos independentes.

A democrática interna e a forma de gestão das tensões que Grillo tem posto em prática nos últimos meses assemelham-se àquela história do miúdo que impõe a sua lei nos jogos de futebol com o argumento de que são donos da bola. Mas a democracia de alta intensidade e a luta social por um outro mundo possível, contra a exploração e precarização da vida de todos os dias, não se podem limitar a ser um conflito de egos nem alimentar-se dos pregões contra a política que a moda e o populismo ditam.

É preciso ter programa e clareza e na proposta, querer ouvir e ter abertura para mudar e ajustar o caminho saber evitar o isolamento e as armadilhas que a desigualdade de meios e os donos da comunicação tecem. E nunca esquecer a convicção e a necessidade do empenho individual e colectivo e da imaginação. Estes parecem ser alguns dos desafios que Grillo e o seu M5S enfrentam, mas são também os trabalhos que se põem à esquerda, e não só em Itália.

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro, Investigador de Políticas de Saúde, Candidato do Bloco de Esquerda à Assembleia Municipal de Sintra
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