Governo e PS aprovam retalhar a Altice

porRui Pedro Moreira

23 de fevereiro 2024 - 18:00
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No campo laboral, a MEO terá hoje cerca de 1/3 das pessoas que tinha em 2015 e se atendermos à valorização dos trabalhadores, bastará verificar que a Altice aumentará os seus trabalhadores em 1,6%, já considerado como o “pior acordo negociado em 2024”.

Desde há vários meses que se fala, insistentemente, na venda da operação portuguesa da Altice, nomeadamente a MEO, ex-Portugal Telecom. Com uma dívida astronómica, o israelita Patrick Drahi, que retirou a empresa da bolsa, continua à procura de uma operação que lhe permita melhorar as contas. Caso a venda se concretize, apesar de sucessivos desmentidos da gestão em Portugal, saberemos que soldadinhos merecerão a medalha de mérito, lá no fim do processo.

De lembrar que o israelita - que também detém passaporte francês, marroquino e português - teve como sócio, precisamente, o “herói português” Armando Pereira entretanto envolvido no escândalo do desvio de mais de 600 milhões de euros, num alegado esquema fraudulento que o levou a ficar em prisão domiciliária e cuja acusação ainda não foi pronunciada pelo Ministério Publico.

Tendo entrado em Portugal pela “porta pequena” da Cabovisão – onde foram figuras de proa os ex-administradores Alexandre Fonseca e João Zuquete, afastados na sequência da Operação Picoas – cedo se percebeu que as práticas laborais não deixariam muitas saudades. Logo que compraram a maior empresa de telecomunicações em Portugal, rapidamente se entendeu que viriam tempos muitos difíceis e desafiadores para trabalhadores e fornecedores. Confirmou-se.

O universo de empresas que compõe a Altice Portugal é significativamente diferente do que aquele que encontraram em 2015 quando foi adquirida a operação portuguesa, na sequência de investimentos pouco sensatos do “Messi das Telecomunicações” em produtos do BES. Hoje, quase 10 anos depois, após uma reconfiguração total, surgem como muito apetecíveis e tentadoras, pensará Drahi, que diversas unidades de negócios como a Geodesia, a Altice Labs ou o Data Center, entre outras, possam ser vendidas muito em breve. São milhares de postos de trabalho, o tal “retalho” anunciado e não desmentido que o Governo estará disponível em facilitar.

Para realizar o tal encaixe financeiro, as duas possibilidades mais fortes em cima da mesa, dizem as “casas de apostas”, referem-se ao fundo Walburg Pincus – que tem Horta Osório como “cabeça de cartaz” - e também a Saudi Telecom.

O Jornal de Negócios, semanas atrás, fez mais revelações, citando o Secretário de Estado da Digitalização e da Modernização Administrativa, Mário Campolargo: “a venda separada de diferentes activos dos operadores é uma tendência que se tem vindo a verificar em vários países da União Europeia.” No entanto, existe a noção que será necessário respeitar o quadro legal, nomeadamente um decreto-lei de 2014, que colocam entraves à alienação de activos estratégicos, na perspetiva da defesa nacional, a fundos ou a empresa fora do bloco europeu. Em ambos os casos citados, a lei parece ser clara.

Ainda assim, e conhecendo-se posições anteriores e práticas em casos análogos, não é difícil de imaginar que não será por acaso, alegadamente, que Fernando Marta terá sido colocado como Chefe de Gabinete da actual CEO da MEO. Marta é também vice-Presidente da APDC, associação representativa das TIC e Media em Portugal, cujo um dos patrocinadores é precisamente a Altice, e trabalhou 12 anos na AMA (Agência para a Modernização Administrativa), onde foi Director, pasta que, curiosamente ou talvez não, o Secretário de Estado em questão está a tratar do tema por delegação do Primeiro-Ministro em gestão, António Costa. Por isso, e tendo em conta o momento eleitoral que atravessamos, será decente que toda a e qualquer decisão transite para o futuro executivo. Ao Partido Socialista pede-se sentido de Estado.

No campo laboral a MEO terá hoje cerca de 1/3 das pessoas que tinha em 2015 e, se atendermos à valorização dos trabalhadores, bastará verificar que a Altice aumentará os seus trabalhadores em 1,6% este ano, naquele que foi considerado como o “pior acordo negociado em 2024”, mas este não é o fórum nem o momento para dissecar este “pormaior”

Sendo a venda às postas o cenário mais provável (e desejável, para todas as partes, dizem e escrevem os especialistas e conhecedores do processo), aí se perceberá o que o bas-fond da política esteve a preparar nestes últimos meses, com as ditas peças de xadrez estrategicamente colocadas no tabuleiro e prontas a fazer xeque-mate. Falta saber a quem.

Artigo atualizado a 23 de fevereiro de 2024

Rui Pedro Moreira
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Rui Pedro Moreira

Ativista laboral
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