Gisèle por todas, todas por Gisèle

porTelma Tavares

06 de janeiro 2025 - 21:43
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O que Gisèle fez foi algo extraordinário para as mulheres, que mobilizou milhares de pessoas que a apoiaram em todo o mundo. Uma mulher-coragem que nos inspirou e nos deu força para continuarmos a sua luta.

Capa de Telma Tavares
Capa de Telma Tavares

Após 10 anos a ser violada pelo marido, Dominique Pelicot, e por cerca de 70 homens, a corajosa Gisèle levou os abusadores à justiça e mudou o paradigma da violência sexual, tornando-se num ícone feminista mundial.

O marido, que conhecia desde os 20 anos, com quem teve três filhos e uma vida feliz, foi considerado culpado de todos os crimes de que era acusado, e cumprirá 20 anos de pena de prisão, a máxima para este tipo de crime. Dos outros 51 homens julgados em Avignon, 47 foram condenados por violação, dois por tentativa de violação e dois por abuso sexual. As penas variam entre três e 15 anos. 15 deles cumprirão oito anos. No total irão cumprir 434 anos na prisão.

Nem em 2011, quando Gisèle andava sonolenta e a dormir em demasia, quando perdeu peso, teve falhas de memória e a suspeita de poder ter problemas graves de saúde, como Alzheimer ou um tumor cerebral, desconfiou do que realmente se passava. Não fazia ideia de que perto da idade da reforma, o marido, Dominique Pelicot, andava na Internet em contacto com estranhos em fóruns e chats com material pornográfico disponível de forma gratuita e ilegal.

Num desses fóruns, um enfermeiro partilhou instruções específicas de como drogar uma pessoa com calmantes para dormir ao ponto de ficar inconsciente. A partir daí, Dominique passou a drogar Gisèle com a medicação sugerida, a violá-la e a partilhar os vídeos na Internet. Mais tarde, através do site coco.fr, entretanto descontinuado, e do skype, começou a fazer convites online a dúzias de homens para violar a sua mulher. Um dos abusadores faltou ao parto do próprio filho para violar Gisèle. Pelo menos um destes homens repetiu o mesmo método com a própria mulher e colocou-a ao dispor de Dominique e de outros homens. Havia também fotos e vídeos de nudez da filha e das noras. A filha não sabe se chegou a ser violada pelo pai.

Gisèle tem uma série de doenças venéreas transmitidas por estes homens, que nem nisso tiveram respeito por ela, ao não usarem preservativos. Um deles era HIV positivo.

Todos estes homens tinham vidas e profissões consideradas “normais”, alguns tinham filhos e todos estavam bem integrados na sociedade. Bombeiros, soldados, jornalistas, condutores de ambulâncias, um DJ. Nenhum destes homens, nem mesmo os que rejeitaram participar, tendo conhecimento deste crime hediondo, foram capazes de denunciá-lo. Só se soube porque Dominique foi apanhado a filmar por baixo de saias de mulheres num centro comercial, sendo obrigado a apresentar o seu material informático às autoridades. Foram encontrados milhares de ficheiros com registo visual das violações a Gisèle.

Em tribunal, Dominique referiu mais tarde que o gatilho para a sua “perversão” foi uma infância em que foi vítima de abusos sexuais e violação.

A questão do consentimento

Por vezes, o nosso pior inimigo está em casa e não sabemos. Foi o que aconteceu a Gisèle Pelicot. Para além do choque deste crime acontecer dentro das paredes da própria casa, em que uma pessoa se acha em segurança, há outra questão que ficou clara neste caso – a da falta de compreensão da sociedade do conceito de consentimento. Muitos destes homens consideram-se inocentes porque acham que o consentimento foi dado pelo marido de Gisèle. Como eram casados, o facto de ela estar inconsciente não importava, como se o “sim” dependesse dele e não da própria. Não estamos seguras enquanto os homens não perceberem que o corpo é nosso e que o consentimento é apenas dado por nós.

Ainda há poucos dias, a atleta espanhola de triplo salto, Ana Peleteiro, denunciou que esteve numa relação tóxica em que acordava muitas vezes com o ex-namorado a ter “relações sexuais” com ela sem consentimento. Uma pessoa que está a dormir não dá consentimento, logo, é abuso sexual. Face a isto, houve uma onda de contestação nas redes sociais, em que muitos homens e até mulheres defenderam que ela, estando numa relação, não tem de dar esse consentimento, e que esse tipo de abordagem sexual quando se está a dormir é “normal”. Não é. Só o nosso “sim” é sim.

Denunciar prejudica mais a vítima que o abusador

Outra das críticas a Ana Peleteiro foi não identificar o namorado abusador, deixando em aberto a possibilidade de, alegadamente, poder ter sido Nelson Évora.

Esta é uma questão muito simples. No caso de Gisèle havia provas físicas que provavam o crime, os vídeos de Dominique, em que foi possível identificar a maioria dos abusadores. Mas nalguns casos não é fácil de provar, a menos que as vítimas recolham provas. E é aqui que a maioria das pessoas diz que, se não há provas, então não devemos acreditar. E é também aqui que deveria haver uma mudança de paradigma: passar a acreditar nas vítimas até prova em contrário para além da habitual “presunção de inocência até prova em contrário”. Quem avança com queixas de violação/abuso sexual/violência doméstica é quem é sempre posto em causa, nunca é o abusador. Basta vermos homens famosos que foram acusados por mulheres de alegadamente terem cometido abusos sexuais/violência doméstica. As vidas deles continuam como se nada fosse, enquanto elas passam pelo escrutínio do público, têm a vida devassada, ficam com as carreiras em risco, perdem oportunidades de trabalho, são alvo de bullying online, ridicularizadas, descredibilizadas. E ainda podem ser alvo de processos de difamação por parte dos abusadores, muitos deles com poder económico para contratar advogados e colocarem as vítimas em tribunal durante anos.

Vejamos o caso Pelicot. Gisèle foi acusada de ter conhecimento e participar de livre vontade, mesmo com provas, mesmo com os vídeos em que aparecia de corpo completamente inerte, inconsciente e a ressonar profundamente que foram mostrados em tribunal. Mesmo tendo Dominique admitido desde o início que a drogava e que ela não tinha conhecimento dos abusos.

Também Gisèle foi descredibilizada, também por outras mulheres, ouvindo várias mães, mulheres e irmãs dos abusadores dizerem que eram “homens excecionais”. Era precisamente o que ela achava ter em casa, mas “um violador não é apenas alguém que encontramos num parque de estacionamento à noite. Ele também pode estar na família, ou entre amigos.”

O legado de Gisèle

“Quero que todas as mulheres que foram violadas digam: se ela conseguiu, eu também consigo”, disse Gisèle, que abdicou do anonimato e de um julgamento à porta fechada e pediu a exibição dos vídeos das violações no tribunal. “Quando abri as portas deste julgamento a 2 de setembro, queria que a sociedade pudesse aproveitar os debates que ocorreram. Nunca me arrependerei desta decisão. Tenho agora a confiança na nossa capacidade de agarrar coletivamente um futuro em que toda a gente, homens e mulheres, possam viver em harmonia, respeito mútuo e compreensão.”

O que Gisèle fez foi algo extraordinário para as mulheres, que mobilizou milhares de pessoas que a apoiaram em todo o mundo. Uma mulher-coragem que nos inspirou e nos deu força para continuarmos a sua luta. Que 2024 seja o ano em que “a vergonha muda de lado”.

Obrigada, Gisèle.

Telma Tavares
Sobre o/a autor(a)

Telma Tavares

Designer gráfica, feminista e ativista. Autora dos cartazes dos abusos sexuais a crianças pela ICAR, iniciativa This Is Our Memorial
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