A gente vai continuar

porPedro Filipe Soares

06 de fevereiro 2022 - 11:14
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A “geringonça” valeu a pena pelas pessoas, mudou para melhor a vida de milhões e foi para isso que serviu, não para mudar a génese do PS ou de António Costa - só incautos poderiam achar que isso seria possível.

O empréstimo da música de Jorge Palma para título deste artigo não significa uma fuga para o romantismo, deixando para trás a análise nua e crua dos resultados eleitorais. O desfecho das eleições de domingo passado tem de ser encarado de frente e resume-se rapidamente: O PS teve uma maioria absoluta, derrotando os partidos à sua esquerda e toda a direita, mais fragmentada e radicalizada. Foi uma noite difícil para muitas pessoas de esquerda, para mim e para o Bloco de Esquerda, particularmente.

A votação do Orçamento do Estado para 2022 assumiu um papel principal na campanha. O chumbo desse Orçamento abria a porta a uma dramatização por parte do PS. Desde as eleições de 2019 que António Costa sabia ter na manga essa carta de trunfo. Foi por isso que já em 2020 ameaçava com crise política no pico do verão e repetiu o guião em 2021. Não se enganem. As negociações não falharam, António Costa pura e simplesmente não quis negociar a viabilização do OE 2022 com os partidos à sua esquerda. A escolha foi colocar Bloco de Esquerda e PCP entre aceitarem a imposição do PS, rompendo com o seu mandato e ficando satélites das vontades do Governo, ou rejeitarem o Orçamento e partirem para a campanha eleitoral sob a acusação da instabilidade e perderem perante a criação de uma maioria absoluta.

Sei que a escolha dos partidos à esquerda poderia ter sido diferente, várias vozes o defenderam, mas discordo abertamente. Não se podem colocar as convicções de lado no momento da votação, nem negar o mandato popular que se representa - são os vínculos mais importantes da democracia. A proposta de OE22 apresentada pelo Governo é má - falha na defesa de cuidados de saúde de qualidade, é muitíssimo curta nas garantias para a Escola Pública, mantém os direitos dos trabalhadores debaixo das regras criadas pela direita e a troika, coloca o investimento público muito aquém do necessário para recuperar o atraso do país em áreas fundamentais como os transportes, a habitação ou a resposta às alterações climáticas. Porventura não fomos capazes de mostrar todos os erros e as formas de os ultrapassar, creio que se deve reconhecer.

António Costa começou esta campanha a afastar os partidos que em 2015 o tornaram primeiro-ministro, os “empecilhos” que não deixaram o PS fazer o que queria. Se foi um ajuste de contas de algum tipo, será o próprio quem terá de o dizer, dado que as coisas à esquerda nunca foram sobre alegadas incompatibilidades pessoais, foram sempre sobre políticas. Em 2015, sabendo dos custos eleitorais que em algum momento teria de suportar, o Bloco de Esquerda tomou a decisão certa ao contribuir decisivamente para a criação da “geringonça”. Com isso conquistámos avanços concretos para um povo que havia muitos anos que só conhecia retrocessos. Valeu a pena pelas pessoas, mudou para melhor a vida de milhões e foi para isso que serviu, não para mudar a génese do PS ou de António Costa - só incautos poderiam achar que isso seria possível.

As sondagens também ajudaram para o desfecho de domingo. Ao criar um empate técnico artificial, as sondagens deixaram de ser fotografias (ainda que) desfocadas da vontade popular para se transformarem em instrumentos fazedores maiorias absolutas. Não sei se para lançar Rui Rio como putativo primeiro-ministro ou para impor o voto útil, o certo é que as sondagens levaram a que muitos votos no PS fossem escritos pelo medo do regresso da direita ao poder, agravado pela possibilidade de trazer como apêndice a extrema-direita. Basta ouvir alguns comentários na praça pública para perceber como muitos votos foram ao engano para uma maioria absoluta que não queriam. É importante que esse engano não desmobilize, antes junte forças para a fiscalização democrática e cidadã a que não podemos faltar.

As maiorias absolutas têm maus cartões de visita, nos atropelos a direitos democráticos e à cidadania, na permeabilidade aos poderes económicos instalados, na corrupção. Cá estaremos para defender o país desse poder absoluto que se vira contra o povo. O ponto de encontro é no sítio do costume: na luta pelos avanços civilizacionais, na defesa de serviços públicos de qualidade, na garantia de direitos fundamentais como à habitação ou à saúde, na construção de uma economia justa, no combate à oligarquia e à corrupção. Será aí que juntaremos forças.

Artigo publicado no joprnal “Público” a 4 de fevereiro de 2022

Pedro Filipe Soares
Sobre o/a autor(a)

Pedro Filipe Soares

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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