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Garraiada académica: onde o conhecimento científico esbarra na barbárie do “divertimento da tortura”

A Semana Académica de Setúbal contém no seu programa uma garraiada, prevista dentro das próprias instalações de ensino superior público – na Escola Superior de Tecnologia do Barreiro – e tem o apoio institucional de inúmeras entidades públicas.

A Semana Académica de Setúbal contém no seu programa uma garraiada, iniciativa que já tem merecido o espanto e repúdio por diversas/os estudantes. Esta situação é tanto mais grave quanto parece estar prevista dentro das próprias instalações de ensino superior público – na Escola Superior de Tecnologia do Barreiro – e tem o apoio institucional de inúmeras entidades públicas.

A universidade, como espaço de aquisição, circulação e produção de conhecimento científico, não pode compactuar, muito menos promover, espetáculos assentes em infligir sofrimento alheio, num inusitado apoio a práticas que representam um retrocesso civilizacional e opõem-se ao progresso de pensamento crítico que o próprio espaço universitário em si encerra.

A universidade, e os seus diversos departamentos de investigação científica, não pode ignorar o conhecimento científico que tem vindo a demonstrar, e comprovar, a senciência de animais. A capacidade de animais como leões, touros ou cavalos de sentirem prazer ou sofrimento é hoje uma evidência científica e tal ignorar é ofender a comunidade científica, é promover a alienação e ignorância científicas e é apostar na iliteracia científica, a que nenhuma academia se pode associar.

Num momento em que as dificuldades de financiamento do ensino superior público, e os sucessivos cortes orçamentais nas verbas destinadas aos apoios sociais, deixam de fora milhares de estudantes, a prioridade do Instituto Politécnico de Setúbal e da recém-eleita Associação Académica é canalizar recursos financeiros públicos para um programa de festas que integra o “divertimento da tortura”.

Este tema, é sabido, não é consensual na sociedade e tem sido palco dos mais acesos debates. O que se pretende hoje levantar é a utilização de dinheiros públicos para este tipo de espetáculos e, mais importante talvez, quais os critérios para a utilização dos dinheiros públicos. A urgência é social e procurar respostas para as/os estudantes que deixaram, ou vão deixar, de estudar por carências económicas mereceria toda a prioridade por parte dos seus representantes e das próprias instituições de ensino superior público.

Uma sociedade evoluída é aquela que abandona práticas tradicionalistas sempre que estas ponham em causa padrões éticos elevados, pelo que a universidade deveria ser um espaço privilegiado de promoção do debate sobre os “princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano”(Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2003).

Do desrespeito pela Declaração Universal dos Direitos dos Animais a valores como dignidade e igualdade de direitos de todos os seres humanos e não-humanos, é inconcebível que uma universidade, em pleno século XXI, não só pondere, como promova e permita a realização nas suas próprias instalações de atos de tortura dissimulados de “espetáculo”. Ao invés de impulsionar a aprendizagem, o conhecimento e a cultura, a universidade entende, sim, apoiar eventos que fazem perigar o progresso, a modernidade e a própria civilidade.

A própria academia decide, assim, fazer tábua rasa dos seus ensinamentos e aposta na amnésia de princípios biológicos comuns entre seres vivos, como a existência de um sistema nervoso, e de princípios éticos fundamentais como a de um ambiente universitário anti-violência.

O apoio institucional que a Semana Académica de Setúbal recebe merece o maior debate público sobre a decisão dos seus conteúdos programáticos e organizativos. O apoio institucional e/ou a cedência de recursos públicos por parte da Câmara Municipal de Setúbal, Câmara Municipal do Barreiro, Junta de Freguesia de Nossa Senhora da Anunciada, Junta de Freguesia de São Sebastião, Instituto Politécnico de Setúbal e Instituto Português da Juventude para a realização de espetáculos com animais baseados em atos que infligem sofrimento físico e/ou psicológico ou lesionem o animal traz a urgência do debate para a esfera pública.

Desidério Murcho, na sua obra “Pensar outra vez”, afirma que “argumentar é defender ideias com razões – e por isso o pior inimigo das sociedades fechadas". Debatamos, então, que sociedade queremos, quais os valores que a universidade deve promover e coloquemos no centro do debate e da urgência social o direito constitucional do acesso à educação. Mas debatamos todas e todos, universidade, estudantes, docentes, profissionais, autarquias e sociedade civil, e averiguemos como viveremos melhor num ambiente de respeito pelos direitos fundamentais de todos os seres vivos.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Psicológicas, área de Psicologia Clínica.
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