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Fortaleza Macron – Europa Fortaleza

Macron vem agora dizer que só com um exército europeu se “protegerá verdadeiramente os europeus das ameaças da China, da Rússia e até mesmo dos Estados Unidos”.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial que a discussão sobre a defesa europeia surge em contextos de desconfiança ou crise na estrutura estabelecida de defesa da união militar atlântica. Macron vem agora dizer que só com um exército europeu se “protegerá verdadeiramente os europeus das ameaças da China, da Rússia e até mesmo dos Estados Unidos”.

Com o Tratado de Lisboa, surge a possibilidade dos Estados da União Europeia avançarem para um aprofundamento de articulação belicista, algo que foi consumado no final de 2017 por 25 Estados Membros, incluindo Portugal. A justificação apresentada para este reforço da Europa Fortaleza vem, como sempre, da perturbação geopolítica associada à desconfiança do guarda-chuva de segurança americana e à pressão continental russa.

Levantam-se vozes que argumentam que o gigante económico que é a Europa só terá voz na política internacional se associar a esta força o poder de defesa, ou seja, o militar. A cooperação estruturada permanente, que está na agenda da União Europeia, é um passo assumido pelos estados nas despesas militares.

A novidade nesta corrida militarista é a sua justificação com motivos económicos. Mais uma vez, o centro económico europeu manieta, com argumentos dissimulados, os países periféricos para os seus próprios interesses. Acenam a estes países com as cenouras da promessa de investimento em investigação e desenvolvimento em segurança e defesa… para logo de seguida comprar tudo o que é necessário ao coração do Capital Europeu e vender a capacidade e mão-de-obra necessária a preços baixos. Já vimos tudo isto antes.

Com a “cooperação estruturada permanente” (CEP) é também abordada a necessidade de especialização dos Estados nas várias áreas da defesa, tal como fizeram com a agricultura e outras áreas, sabendo-se que isso resulta numa relação desproporcionada e desigual entre o centro e a periferia. Com o argumento de reforçar a cooperação ao nível da defesa abrir-se-á mais fosso e desigualdade entre os países periféricos e do centro, aumentando desconfianças e nacionalismos.

Indissociável desta iniciativa militarista, está a questão do exército único europeu. É certo que esta estratégia prevê a unanimidade quanto às decisões que se tomam no seu âmbito e no voluntarismo dos Estados para aderirem, no entanto, a questão não se coloca no explícito. A questão está no implícito e na oportunidade que, com o contexto propício, se pode gerar a ideia da necessidade de um exército único europeu.

 

Com a viragem crescente de extrema-direita na Europa, incluindo nas maiores potências económicas e militares, há que colocar a questão: Para o quê e para quem serviria um exército único europeu?

Atualmente Portugal tem uma despesa com a NATO de 22 Milhões de Euros. Com a cedência às ameaças de Trump significará que o orçamento nacional para a Defesa tenha de comportar ainda mais 330 Milhões de Euros para obedecer aos ditames imperiais. A somar a tudo isto, a CEP trará um novo acréscimo com despesas na área militar, desta vez para obedecer aos critérios europeus. Se por um lado temos uma União Europeia intransigente quanto aos défices, não tolerando uma centésima de desvio, por outro temos uma União europeia que com a “cooperação estruturada permanente” pede mais despesa em defesa aos Estados. É muita guerra, pouca paz.

Isto significa literalmente não investir em mais e melhores escolas, mais e melhores serviços de saúde, como por exemplo eliminar as taxas moderadoras da saúde ou abrir uma ala pediátrica do Hospital de São João do Porto, para ter mais meios para fazer guerra.

Estados com melhor saúde, melhor educação e melhor emprego dão menos margem de crescimento a opções violentas e extremas e asseguram coesão e justiça social. Não Sr. Macron, não precisamos de um exército único europeu. Nunca precisámos, nem nunca iremos precisar.

Sobre o/a autor(a)

Autarca em Lisboa. Licenciado em Relações Internacionais
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