As sondagens das eleições americanas esperavam uma corrida renhida para a presidência, mas o resultado foi desastroso para o partido Democrata. Dos “swing states”, Trump levou os sete, conseguindo uma vitória maior que a de Biden e ganhando pela primeira-vez o voto popular – por larga margem.
Bernie Sanders foi dos primeiros nomes de peso a apontar o óbvio: a campanha de Kamala desistiu da classe trabalhadora e isso saiu-lhe caro. Sanders não é radical, e sabemos que teve posições erradas e contraditórias sobre o genocídio em Gaza, mas não deixa de ter razão e de estar bem posicionado para fazer a crítica.
Ainda que a resposta para a vitória de Trump seja mais complexa, e implique pensar a realidade material, sobretudo através do impacto das políticas de Biden para o aumento da desigualdade nos Estados Unidos da América e do peso brutal da inflação nas decisões dos eleitores, a verdade é que o partido Democrata está esgotado política e socialmente. Aí também está uma causa real da sua derrota.
Comecemos pelo mais óbvio. Harris não foi escolhida para ser candidata pelas suas capacidades políticas ou discursivas, mas sim por ser a mais consensual para substituir um candidato que tinha dificuldade em terminar frases e não tinha energia para participar em debates. Biden também não foi escolhido pela sua capacidade política, foi escolhido por ter taxas de aprovação altas entre os eleitores, muito devido à sua ligação com Obama.
Mas a falta de bons candidatos tem uma resposta mais profunda. O partido Democrata não tem uma plataforma coesa. Talvez nem tenha sequer uma plataforma política, no sentido mais sério do termo. A plataforma do ‘neoliberalismo com rosto’ que era mais real com Bill Clinton ou Barack Obama tem dado lugar a um ‘vale-tudo’ nas promessas eleitorais e reificado a visão republicana de que os Democratas saltam de posição em posição.
Kamala Harris foi de muitas formas a personificação dessa política. Primeiro era contra o fracking, depois não era. Primeiro era a maior defensora de Israel, depois já reconhecia ‘excessos’ (usar qualquer sinónimo desta palavra para descrever um genocídio já é péssimo de sua própria forma). Primeiro era contra o muro na fronteira do México, depois o problema era que o muro não tinha sido eficiente o suficiente. Antes de ser candidata era a favor da Medicare for All, no primeiro discurso que fez como nomeada já não era.
Não inspirou confiança nem visão política. Isso explicará também porque é que ao entrar na campanha tinha uma vantagem tão grande sobre Trump, e acabou por desbaratá-la completamente. Não soube mobilizar ninguém que não temesse a extrema-direita. Falou sobre aborto para galvanizar as eleitoras, mas teve menos apoio das mulheres que Biden. Sublinhou a economia de oportunidades e a importância da democracia, mas os slogans vazios não colaram com nenhuma política séria.
Harris não foi a candidata de ninguém, como o partido Democrata já não é o partido de ninguém. Representam apenas uma política do sistema, em decadência, a quem restou um oportunismo taticista que se agarrou ao identitarismo neoliberal para ir lançando temas avulsos. O alvo perfeito para um experiente populista de extrema-direita como Trump.
Entre os comentários, vai-se ouvindo que Kamala perdeu porque ou foi demasiado à direita, ou foi demasiado à esquerda. Aí está a contradição perfeita para ilustrar o desastre estratégico de toda a sua campanha. Não foi a lado nenhum. Foi dizendo o que lhe parecia certo quando lhe convinha. Aproximou-se dos republicanos para ser consensual, aproximou-se dos eleitores negros e das mulheres para tentar capitalizar contra o discurso de Trump.
A campanha de Kamala desistiu tanto da classe trabalhadora quanto o partido Democrata já tinha desistido historicamente. A esses eleitores bastava colocar uma questão para perceber se Harris iria ou não ganhar: “Foi você que escolheu esta candidata?”