Foi você que pediu este veneno?

porPedro Filipe Soares

24 de abril 2012 - 0:00
PARTILHAR

O Governo holandês torna-se na primeira vítima do Tratado Orçamental.

A Europa tremeu com as notícias vindas da Holanda. Mark Rutte – o primeiro-ministro holandês e um dos principais defensores da política de austeridade na Europa – demitiu-se após uma cisão na coligação que apoia o governo, com a rutura do partido de extrema-direita PVV. Assim, Liberais e Democratas Cristãos ficaram de mãos atadas e resignaram. A implosão do governo acontece pela divisão em torno de um programa de austeridade no valor de 16 mil milhões de euros que pretendia fazer descer o défice de 4,7% em 2011 para 3% em 2013. Insolitamente, a Europa da austeridade perde um dos seus mais fanáticos protagonistas.

Isto porque o governo holandês foi dos principais defensores do novo Tratado Orçamental Europeu (Pacto da Austeridade) e da disciplina para os países da periferia europeia. Mark Rutte foi mesmo um dos protagonistas dos discursos mais moralistas sobre os incumpridores do sul da Europa, e chegou mesmo a defender a criação de um euro restrito às economias do Norte, o neuro. Com a demissão do seu governo, a Holanda torna-se na primeira vítima do novo Pacto da Austeridade. Mark Rutte sentiu na pele o efeito do seu veneno. A austeridade não poupa nem os seus mais fieis seguidores.

A Holanda é dos poucos países que ainda mantém o seu rating triplo A. Contudo, é o confronto com as políticas de austeridade e os seus resultados que dá o mote para o ataque das agências de rating. Tudo indica que se segue a queda da avaliação das agências de notação financeira e se inicia o calvário já conhecido por outras paragens. A chantagem sobre a austeridade é o campo fértil para a especulação dos mercados. As ondas de choque pelas bolsas europeias dão conta disso mesmo, antecipando a entrada num novo capítulo da crise europeia. O exemplo holandês é agora um dos novos pilares da instabilidade europeia: aqui estão os resultados da aplicação do Pacto de Austeridade, ainda para impor 3%, muito longe dos 0,5% que prevê esse tratado. A extrema-direita saltou do carro porque percebeu o desgaste da sua base popular com estas medidas antissociais.

A receita do plano de austeridade holandês é muito nossa conhecida: aumento do IVA, congelamento de salários para os funcionários públicos, cortes no Estado Social. Um passo atrás para a economia e para os holandeses. Afinal, é tão mais fácil dar palpites em casa alheia. Por isso mesmo, torna-se ainda mais incompreensível que Portugal tenha querido ser o primeiro país a ratificar o Tratado Orçamental, ou Pacto de Austeridade, arriscando-se a estar comprometido com objetivos que mais ninguém irá cumprir. A cegueira da submissão não é a melhor conselheira… E, de novo, paira o fantasma de um referendo na Holanda sobre este Tratado. Recordemo-nos que na última vez que um tratado europeu foi a votos na Holanda, estampou-se o tratado e só por cima da vontade dos holandeses foi ratificada uma versão pirata que se chama Tratado de Lisboa.

Pedro Filipe Soares
Sobre o/a autor(a)

Pedro Filipe Soares

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
Termos relacionados: