Às 11h33 de dia 28 de abril, Portugal ficou offline e às escuras. Um pouco por toda a esfera digital, multiplicaram-se nas horas seguintes ao regresso à normalidade publicações que ensaiavam reflexões, com pretensões mais ou menos filosóficas, acerca do impacto do apagão. Não escassearam adjetivos laudativos ao evento. Houve quem o descrevesse como “uma bênção” e dissesse que viver meio dia de apagão foi “um sonho”, um interlúdio que nos permitiu redescobrir o que é mais importante. Todos lemos relatos de esplanadas cheias, em estabelecimentos que procuravam escoar o stock de gelado e cerveja antes que o colapso da refrigeração os tornasse irrecuperáveis; de crianças a brincar despreocupadamente nos parques, sob o olhar sereno dos pais que, por uma vez, se libertaram da tirania das notificações constantes no telemóvel; dos vizinhos que se juntaram para fazer um churrasco na beira do passeio, como só vemos nos Santos Populares.
Neste momento, fazem-se alusões a um “antigamente” nebuloso, tempo indefinido que abarca todas as idealizações. Entre as também muitas, e merecidas, odes à rádio, um passado maleável é invocado com nostalgia, servindo-nos como refúgio de um presente saturado de ruído, pressa e principalmente, de ecrãs. Argumenta-se, em muitos escritos, que a desconexão digital forçada teve impacto positivo na conexão entre as pessoas. Não ousarei discordar. Também não pretendo focar-me num lado pouco discutido, mas que convém lembrar: o dos milhares que, nesse dia, não tiveram qualquer alívio trazido pelo apagão, mas sim mais uma de incontáveis jornadas de escuridão, e a quem o evento só trouxe atrasos, complicações e desventuras. Talvez devêssemos, então, olhar de frente para o que nos foi dado a viver nesse dia e interrogarmo-nos sobre a origem desse súbito afloramento de comunhão social, de que tanto se falou. Será que bastou a ausência de ecrãs para que tal acontecesse? Ou terá sido, sobretudo, por uma libertação momentânea dos relógios de ponto, que nos devolveram à cidade e uns aos outros?
Por um acontecimento raro, a meio de um dia útil, milhares de pessoas acabaram dispensadas mais cedo do trabalho. Eram delas os corpos que começaram a ocupar os parques, as varandas, os cafés, num tempo que, ainda que muito brevemente, deixou de estar colonizado pelo trabalho. Foi este o hiato que tornou possível, por exemplo, que pais que habitualmente chegam à escola dos filhos em contrarrelógio, a pensar no que vão fazer para o jantar em menos de meia hora, tivessem uma hora livre para brincar com as crianças no parque.
Esta rara pausa expôs, mais do que a nossa dependência digital, a arquitetura profundamente desequilibrada do tempo nas nossas vidas. Não é por acaso que estamos no top 10 entre os países da União Europeia que trabalham mais horas por semana, perto de três horas a mais do que a média. No caso de muitos trabalhadores, acresce o peso da gentrificação, que os tem empurrado para cada vez mais longe do centro das cidades onde trabalham, esticando as deslocações diárias e convertendo o percurso casa-trabalho numa segunda jornada, tão exaustiva quanto não remunerada. Forma-se assim uma maioria que raramente tem a possibilidade de estar, simplesmente estar, no espaço comum. O seu tempo é consumido pelo trabalho. O que sobra está fragmentado e, muitas vezes, exausto.
Com o tempo devolvido às pessoas, foi possível vislumbrar uma cidade diferente. O que também se revelou, nas horas suspensas do apagão, foi o desejo por uma cidade que realmente nos pertença. Uma cidade em que o espaço público não é mero corredor de consumo, mas antes lugar de pertença e de encontro. Onde sentar-se num banco ou estender uma toalha na relva não requer o pagamento de um café. Onde as ruas, praças e jardins não estejam incessantemente subjugados à lógica mercantilista. Porque mais do que a ausência de ecrãs, o que vimos foi a reocupação dos espaços por quem os habita, como se por um breve instante as cidades voltassem a pertencer às pessoas.
Neste remoinho de reflexões nostálgicas, houve quem clamasse por um apagão que se repita ciclicamente. Mas talvez o apagão de que necessitamos seja outro. Precisamos que se apaguem as 40 horas de trabalho semanais, às quais se somam, quase sempre, uns minutos de zelo invisíveis, um prolongamento tácito ditado pelo receio de que os olhos do patrão nos vejam como apressados para sair. Não teremos nós “amor à camisola”? Precisamos que se apague um dia de trabalho por semana sem que se apague parte do salário, para que o tempo para viver não seja apenas construído de retalhos que nos sobram, aqui e ali. Precisamos que se apague o trabalho por turnos para trabalhadores com filhos pequenos, para que possam continuar a encher os parques infantis a horas em que o sol ainda brilha. Precisamos que se apague a laboração contínua em setores não essenciais, para que o direito ao ócio partilhado permita que as esplanadas se voltem a encher de amigos com um horário comum. Mas entre todos os apagões que ainda estão por fazer, que nunca se apague a vontade de mudar de vida.