Fixar mais

porJessica Pacheco

12 de dezembro 2022 - 16:57
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Este governo de direita [dos Açores] que tantas vezes apregoa que não se deve atirar dinheiro para os problemas, é o primeiro que para se manter no poder avança com um programa de promoção à natalidade que pretende dar 1500€, para gastar em farmácias, a apenas 30% da população açoriana.

Este governo de direita que tantas vezes apregoa que não se deve atirar dinheiro para os problemas, é o primeiro que para se manter no poder avança com um programa de promoção à natalidade que pretende dar 1500€, para gastar em farmácias, a apenas 30% da população açoriana – um critério muito questionável – demonstrando falta de visão política para enfrentar a problemática de perda populacional na nossa região.

Se por um lado, é claro que a perda populacional da nossa região não se deve principalmente à baixa natalidade, mas sim ao saldo migratório negativo, por outro, pagar para que as famílias tenham mais filhos quando não se promove políticas de incentivo à fixação dos jovens e adultos na nossa região demonstra incapacidade de perceber o problema.

De que serve promover mais natalidade, quando na sua vida adulta estas mesmas pessoas decidem sair da região e se fixar em outros destinos que os motivam financeiramente e lhes proporcionam a tão desejada estabilidade laboral e familiar?

Dizer aos casais que têm disponível um estímulo de 1500€, para gastar em farmácia, quando os mesmos sentem na pele a dificuldade de alavancar a sua vida pessoal e financeira, quando continuam a ver barrada a sua hipótese de acesso à habitação, é no mínimo promover a reprodução da instabilidade e da pobreza a que assistimos na região.

Não deixa de ser curioso que o partido que levou à implementação desta medida, o Chega, aponte o dedo aos pobres e aos que recebem o rendimento social de inserção, mas depois é o tal que, através de um critério geográfico injusto, quer atirar dinheiro para que as famílias tenham filhos sem que haja garantias de estabilidade e sustentabilidade na vida destas pessoas. Isto é de uma incoerência e de uma desonestidade intelectual tremenda.

Uma coisa é certa, os dados mostram que população residente açoriana é a mais baixa em 100 anos e continuando este caminho acabaremos por levar ao êxodo dos nossos maiores recursos em prol de medidas de penso rápido desgastado para manter no poder quem insiste em populismos e desinformação política.

Esta proposta parte de uma premissa errada, de que o problema na perda populacional nos Açores está associado exclusivamente à baixa natalidade, escolhendo a dedo quem serão os felizes contemplados. A verdade é que 70% da população ficou para trás e os quase 3M de euros canalizados para esta proposta serão apenas para agradar um dos que, mês sim mês não, diz querer rasgar o acordo parlamentar.

Ter um filho acarreta um conjunto de responsabilidades que não se prendem apenas com questões financeiras, mas sim de tempo e estabilidade familiar e laboral.

Apostar em pagar para ter filhos não é solução, mas sim investir em políticas incentivadoras da parentalidade e na motivação para que os açorianos e açorianas que queiram ser pais permaneçam na região e reproduzam esta vontade aos seus descendentes.

Certo é que este Governo no meio de tanta antibiose está mais concentrado em manter a sua estabilidade, em vez de canalizar os milhões de euros do erário público em políticas promotoras de um melhor futuro. Ficou claro que este foi mais um orçamento de futuro zero!

Jessica Pacheco
Sobre o/a autor(a)

Jessica Pacheco

Enfermeira e presidente da VegAçores-Associação Vegana dos Açores.
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