Eurovisão, Israel e uma emissora pública que escolhe o lado errado

porCláudio Guerreiro

12 de dezembro 2025 - 12:59
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A decisão da RTP de participar na Eurovisão 2026, mesmo com o boicote de emissoras que tomaram a única posição coerente de recusar a normalização da crueldade, não é neutra. O que se exigia era coerência com os valores de justiça, solidariedade e dignidade humana.

A recente decisão da RTP de manter a participação de Portugal no Festival Eurovisão da Canção 2026, apesar do boicote anunciado por vários países, não pode ser vista como mera neutralidade ou respeito pelas regras do concurso: trata-se de uma escolha moralmente errada. Quando emissoras como as da Espanha, dos Países Baixos, da Irlanda, da Islândia e da Eslovénia levantam o braço e dizem "não podemos participar ao lado de um concurso que legitima um estado que comete crimes contra a humanidade", isso exige respeito, solidariedade e é uma fonte de inspiração.

Os que se recusam a assistir passivamente ao "teatro da normalidade" mostram hoje a fibra que se exige: recusam que a cultura seja usada como fachada para legitimar violações sistemáticas dos direitos humanos. O boicote é uma declaração de princípios, uma recusa em participar num espectáculo que, ao permitir a presença de Israel, transforma-se num palco de propaganda, manipulação e branqueamento. Este concurso que nasceu com o intuito de unir povos depois da 2.ª Guerra Mundial tem também uma base política. O que temos assistido nos últimos dois anos é um completo assobiar para o lado enquanto existe um participante que tem aproveitado todas as ocasiões em que aparece para passar a sua propaganda.

É inevitável que a arte seja também política, mas o que tem de ser obrigatoriamente evitável é utilizar o concurso como forma de propaganda. Outros países, como o caso da Bielorrúsia já foram banidos por isso, mas a organização insiste em não ver isso neste caso porque outros interesses se levantam.

O boicote é o mínimo exigível

A justificação para muitas das emissoras públicas nacionais que decidiram boicotar a Eurovisão não se baseia em preconceitos, mas sim em ética: a participação de Israel torna intolerável a presença no concurso. Por exemplo, a emissora pública neerlandesa, a AVROTROS, afirmou que "a participação de Israel já não é compatível com a responsabilidade que temos como serviço público de radiodifusão".

E não se trata só do genocídio. Trata-se também de liberdade de imprensa e dos jornalistas a que estas emissoras públicas estão obrigadas. Diversas vozes apontam que a participação de Israel e a respetiva conivência com a presença do país na competição contradizem de forma escandalosa os valores culturais, humanistas e pluralistas que deveriam nortear o concurso e que estiveram na base da sua fundação.

Para muitos países, juntar-se a um concurso que continua a legitimar um estado que comete destruição massiva, genocídio e censura e assassinato de jornalistas é incompatível com os princípios básicos de dignidade humana e solidariedade com os povos vítimas da guerra.

A contradição com casos passados é clara: o que se fez à Rússia e o que se recusa a fazer a Israel

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, a entidade máxima das emissoras nacionais no continente europeu (União Europeia de Radiodifusão, EBU na sigla em inglês) tomou uma decisão clara: suspendeu a sua participação, sob o argumento de que a sua presença trazia "disrupção ao concurso" e, implicitamente, por violar os valores de paz e respeito pelos direitos humanos.

É incompreensível que hoje, com um conflito que levou a milhares de mortes em Gaza e com denúncias generalizadas de crimes, a resposta da maioria da EBU seja apenas mudar as regras de votação, em vez de excluir o responsável por todo o distúrbio. É a própria EBU que politiza o concurso ao não ser coerente com o que defendeu há poucos anos.

Essa dupla moral deslegitima aquilo que o organismo afirma defender: a neutralidade do concurso, a paz e a cultura como ponte entre os povos. Se a neutralidade não valeu para a Rússia, por que vale agora para Israel? A resposta é clara: por interesses políticos e comerciais, por manter mercados cativos e audiências, mesmo que para isso se sacrifique a coerência e os valores fundadores do concurso e, não menos importante, deixe uma vasta comunidade de fãs completamente indignada.

A decisão da RTP ao escolher o lado errado

O que se exigia era que a RTP se colocasse do lado certo da História e que se juntasse aos países que pronunciaram um "basta" às hipocrisias da EBU. Pela paz, pela solidariedade, pela justiça e pela coerência com os valores de liberdade, direitos humanos e dignidade exigia-se à RTP um posicionamento diferente. Apesar de o regulamento do Festival da Canção em Portugal no próximo ano abrir a porta a que o vencedor se recuse a viajar até à Áustria em maio, a verdade é que a emissora pública tinha a obrigação moral de escolher o lado correto agora.

Após a recente confirmação da retirada da Islândia, que se junta às quatro anunciadas no dia da assembleia geral da EBU, confirma-se que será a competição com mais desistências desde 1970. Isto torna provável que se venha a tornar a Eurovisão com menos participantes nos últimos 20 anos mesmo com os regressos já anunciados de Bulgária, Moldávia e Roménia. No mesmo dia deste anúncio tivemos o comunicado conjunto de uma grande parte dos concorrentes do Festival da Canção em Portugal que anunciaram que não irão a Viena em caso de vitória.

Continuar com a participação de Israel não é só ignorar o sofrimento, é colaborar com a normalização de um massacre, é transformar a música e entretenimento num palco de branqueamento e impunidade.

Em nome de quê? Interesses comerciais mascarados de cultura

A EBU prefere perder cinco países históricos da Eurovisão, inclusive países fundadores, a abdicar de um país que, desde a sua participação em 2024, tenta usar a Eurovisão como instrumento de propaganda e legitimação perante a Europa.

As mudanças aprovadas no sistema de votação e restrições à promoção estatal não resolvem nada. São pura cosmética. A guerra, os mortos, os refugiados, a censura, a destruição, continuam. A permissividade mantém-se.

Basta verificar que, ainda recentemente, a EBU aceitou renovar o contrato com a empresa israelita na área dos cosméticos Moroccan Oil para continuar a ser o principal patrocinador do concurso em 2026. A partir daí, os fãs perceberam mais uma vez que seria difícil retirar o país da Eurovisão.

Uma luz ao fundo do túnel, mas…

A única luz ao fundo do túnel para a retirada da Israel do concurso acaba por surgir por força de decisões internas. O conflito que existe entre o governo de Netanyahu e a emissora nacional KAN é conhecido de quem acompanha de perto o concurso. Há algum tempo que a intenção é privatizar a emissora nacional no âmbito de uma reforma que levará ao controlo do setor dos media, o que torna automaticamente a KAN inelegível para concurso por virtude da EBU ser uma rede de emissoras públicas. No entanto, os estragos feitos à reputação do concurso estão já há muito feitos e a EBU só fica mal na fotografia ao não ter sido ela a dar o passo.

A decisão da RTP de participar na Eurovisão 2026, mesmo com o boicote de emissoras que tomaram a única posição coerente de recusar a normalização da cruelade, não é neutra. O que se exigia era coerência com os valores de justiça, solidariedade e dignidade humana. O boicote de Espanha, Países Baixos, Irlanda, Islândia e Eslovénia mostra o caminho: cultura não pode ser desculpa para legitimar opressores.

Portugal e a RTP ficaram do lado errado. E em março veremos os próximos capítulos desta história depois do nosso Festival da Canção.

Cláudio Guerreiro
Sobre o/a autor(a)

Cláudio Guerreiro

Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação e com interesse na área dos media, cultura participativa, cultura de proximidade e comunidades de fãs
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