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Europa: “por quem os sinos dobram?”

Alexis Tsipras continua a não desistir de lutar pela dignidade do povo grego e pela esperança dos povos da Europa.

Seria mais fácil ter desistido de uma via europeia, entregar-se imediatamente ao sonho de uma solução exclusivamente nacional realmente condenada ou capitular perante o autoritarismo federal capitaneado pelas burguesias europeias. Mas o Syriza não desistiu nem da Democracia Grega nem da Europa. Quem perde se o governo que lidera for forçado a escolher1? O primeiro-ministro Alexis Tsipras chega mesmo a invocar a obra-prima de Ernest Hemingway para esclarecer quem quer que (erradamente) pense que a questão grega é um problema grego e não uma questão internacional.

1 – Grécia: não esperaram nada do PASOK e não ficaram à espera do KKE

Os cinco anos de memorando da troika CE/BCE/FMI2 na Grécia foram garantidos por Pasok e Nova Democracia (ND). Nesses cinco anos acelerou-se o ritmo - e perdeu-se qualquer aparência de vergonha – ao já longo processo de destruição da economia grega a favor da finança internacional. Um processo de destruição que, incluindo vias corruptas, foi sempre dirigido pelos alternantes governos daqueles dois membros do Partido Socialista Europeu (PASOK) e do Partido Popular Europeu (ND).

Se em pacto de alternância PASOK e ND pavimentaram o caminho da tragédia europeia na Grécia, foi mesmo coligados sob a liderança dos novos conservadores (ND) que os (ex)socialistas gregos (PASOK) colocaram a Democracia Grega sob a humilhação. Foi essa coligação abençoada pelo memorando da troika CE/BCE/FMI que fez da Grécia o Estado com maior desigualdade social ao nível da União Europeia, com um desemprego jovem de 60%, um desemprego geral de 28%, e uma quebra de 40% no rendimento médio, uma expulsão da imensa massa desempregada dos serviços públicos de saúde.

Não foi fácil o caminho que levou a Esquerda Radical à conquista de uma maioria parlamentar e da liderança do governo. A Esquerda Radical (Syriza) nasceu com 3,3% em 2004, teve avanços (5% em 2007) e teve recuos (4,6% em 2009). O seu maior crescimento é tributário de uma linha política acertada conjugada com a luta social.

Desde o início da intervenção da troika, que os protestos e as greves na Grécia foram impressionantes. Do mesmo modo, a resistência viu na auto-organização popular uma resposta à exclusão de milhares de pessoas dos serviços públicos na Grécia. Essa resposta criou desde hospitais sociais (com médicos e enfermeiros voluntários) até aulas de música gratuitas para crianças, passando inclusivamente pelo ensaio de uma cooperação direta entre produtores agrícolas e consumidores citadinos para resistir à fome a que a austeridade condenava o povo grego. Parte ativa nesses movimentos, sem se fazer dono dos mesmos, conseguiu chegar a segunda força política (16,8%) com um programa anti-austeridade, em maio de 2012, ultrapassando o Pasok. E sem capitular ao centro, o Syriza manteve-se na inequívoca oposição à austeridade também nas eleições de junho de 2012 (26,9%).

Um caminho de resistência em nome de uma alternativa que começou na oposição ao Centrão Pasok-ND. Nesse percurso, o Syriza teve inclusivamente de enfrentar a cisão dos que aspirava à recomposição do centro-esquerda. A Esquerda Democrática Dimar (construída a partir de cisões do Syriza e do Pasok) levou a vontade de aproximação ao Pasok até às últimas consequências e, durante um ano, formou parte do Governo liderado pelo conservador Samaras, para depois se eclipsar nas eleições seguintes – ainda me lembro de quem em Portugal elogiou o Dimar3.

Quando o Syriza atingiu uma maioria relativa no parlamento, com 36,3% dos votos contra os 27,8% do ND, e por via dos benefícios do sistema eleitoral grego4 obteve 149 de 300 mandatos, teve então de resolver a questão da maioria necessária para formar governo. O partido comunista grego KKE (5.5%), preso na lógica do purismo e numa estratégia de saída do euro contrária às aspirações populares gregas, faltou à chamada para a formação de um governo de esquerda forte. Para garantir um governo de emancipação nacional, o Syriza encontrou um parceiro nos conservadores Gregos Independentes (Anel, 4.8%), que embora não acompanhem a agenda progressista do Syriza em diversos campos, estão disponíveis para defender o país contra a austeridade e a finança internacional, sem vergar – ao contrário do Pasok (4,7%) e mesmo do novo partido de centro-esquerda To Potami (6.1%), que sendo anti-austeridade poderia ceder às pressões do institucionalismo europeu.

Ao contrário do previsto pelos mais pessimistas, a coligação com os Gregos Independentes (Anel) não impediu que o Syriza iniciasse no passado 10 de junho o processo legislativo para a extensão da união civil aos casais homossexuais, nesse país onde a Igreja Ortodoxa continua a ter um papel preponderante. O combate do Syriza é também contra o conservadorismo social e ainda contra a extrema-direita, que no país é a terceira força política (ΧΑ-Aurora Dourada, 6,9%)

O Governo liderado pelo Syriza fez da justiça social e da redistribuição das riquezas aquilo a que chamou as suas “linhas vermelhas” nas negociações com as instituições europeias e internacionais. Afirmando que as linhas vermelhas do governo eram também as linhas vermelhas do povo. Aliás o apoio, em sondagem (6/05/2015), de 59% do povo à estratégia negocial, é um indicador da capacidade de liderança do Syriza. Os números das sondagens apontam para uma consolidação Syriza como principal força política grega (sondagem Marc 11 jun: 41,1% Syriza, 23,6% ND; Metron Analysis 6 jun: 45,0% Syriza, 21,4 ND; Pamak 3–6 jun: 42,9 Syriza, 20,5% ND).

2 – A questão grega é internacional

O avanço social e político da esquerda da Grécia não tem precedentes nas últimas décadas na Europa. Como também não tem precedentes recentes a capacidade organizativa dessa esquerda frente a um processo de destruição social que detonou um quarto do Produto Interno Bruto e expulsou do mundo do trabalho mais de um quarto da população ativa. O quadro político-social grego tem portanto características muito particulares.

Um país como a Grécia, com apenas 11 dos 334 milhões de habitantes da zona euro e com apenas 2% da produção anual da União Europeia, precisa da força da solidariedade internacional e da luta do movimento social grego. Não podem ser só a finança internacional e as potências europeias a pressionar e o Governo do povo grego a resistir. É preciso dizer com clareza que nem liderar um governo nacional é suficiente, nem a solidariedade e as alternativas internacionais estão ainda à altura de enfrentar o domínio imperial das burguesias europeias. Nem desistir nem perder o chão, ainda que não queiramos menos do que o assalto aos céus.

A perspetiva de governos anti-austeridade no Estado Espanhol e na Irlanda, em termos de calendário, está ainda longe de ser uma realidade, e o sufoco à Grécia é permanente com a torneira da liquidez sempre pronta a ser fechada pelo BCE. A emergência de alternativas populares em cidades como Madrid e Barcelona, a resistência e o avanço de forças de emancipação nacional na Escócia, Catalunha, País Basco e Galiza, e ainda os curdos e turcos progressistas do Partido Democrático do Povo, todos esses processos são sinais de esperança para uma nova Europa. No entanto, são partes de um logo caminho e nem na Alemanha nem na França há ainda indícios de um crescimento suficiente de alternativas de esquerda, ainda que os programas e a luta da Front de Gauche (6,91% na primeira volta das legislativas francesas 2012) e do Die Linke (8,6% nas legislativas federais alemãs de 2013) sejam elementos fundamentais para o futuro da classe trabalhadora e dos povos da Europa.

Feitas aquelas notas não podemos de deixar de sublinhar: em França, o papel da Front de Gauche na oposição ao governo de austeridade dos (ex)socialistas François Hollande e Manuel Valls e no combate ao crescimento do partido neofascista Front Nacional. E, na Alemanha, destacar recente onda de greves e o papel do Die Linke como principal força de oposição ao governo Merkel (governo de coligação entre a direita CDU e o SPD).

Os tempos são difíceis e, apesar de algumas esperanças concretas, as alternativas sociais e políticas têm de se afirmar em todos os países. Também em Portugal, onde o Bloco de Esquerda teve 5,17% nas legislativas de 2011, a solidariedade concreta é continuar a contribuir quer nas lutas sociais, quer nas próximas legislativas (setembro ou outubro de 2015) para essa transformação internacional.

3 - Não perguntes por quem os sinos dobram

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do Continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti” (John Donne, Meditações VII; 1624)5

Estas meditações reapareceram no século XX pela mão do norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961) como inspiração e mote da sua obra-prima “Por quem os sinos dobram?” (1940). E a genealogia destas palavras férteis em livros, filmes e canções prossegue agora num artigo “A Europa numa encruzilhada” que Alexis Tsipras escreveu para o jornal francês Le Monde6. Nele o primeiro-ministro grego faz um alerta àqueles que julgam que os resultados das negociações entre a Grécia e as instituições europeias e internacionais só afetarão a Grécia, concluindo: “a estes, remeto-os para a obra-prima de Ernest Hemingway, ‘Por quem os sinos dobram?’”.

A meio caminho entre essas palavras do último dia de maio e data limite, Alexis Tsipras continua a não desistir de lutar pela dignidade do povo grego e pela esperança dos povos da Europa:

"A única coisa que se pode entender na insistência das instituições em impor novos cortes nas pensões, depois de 5 anos de saques pelos memorandos, é a conveniência política. O governo grego vem à mesa das negociações com um plano e contrapropostas documentadas.
Vamos esperar pacientemente até que as instituições aderiram ao realismo. Se, no entanto, alguns veem a nossa sincera vontade de uma solução e nos passos que demos, a fim de superar as diferenças, como uma fraqueza: Eles devem ter em conta que: Nós não carregamos apenas uma pesada história de luta.
Nós carregamos em nossas costas a dignidade de nosso povo e também as esperanças dos povos da Europa. É um fardo pesado demais para ser ignorado. Para nós, estas negociações não são uma questão de obsessão ideológica. Elas são uma questão de democracia. As instituições não têm o direito de enterrar a democracia europeia no lugar onde nasceu." 7

O editor do Financial Times Wolfgang Münchau considera que a "aceitação do programa da troika constituiria um duplo suicídio", quer para a economia grega quer para o futuro político de Tsipras (e da Esquerda Radical acrescentamos nós). Argumenta que “a Grécia não tem nada a perder ao dizer não aos credores”, não dando sequer como certo o chamado Grexit (saída da zona euro) em caso de recusa da proposta suicida8. Os custos políticos e financeiros, para a Alemanha e a França, com uma saída da Grécia são muito elevados. Do mesmo modo, que nem a finança tolera a democracia grega, nem o povo grego pode continuar a viver sob a ditadura da finança.

Qualquer que seja o desfecho da presente batalha grega, o futuro da classe trabalhadora e dos povos da Europa será sempre o reencontro da solidariedade internacional, esperança concreta que espreita como luz nas fendas do muro do capitalismo e do imperialismo global.


1 Quando falamos de Europa, também é importante saber de “Qual Europa?” http://www.esquerda.net/opiniao/qual-europa/32733 falamos.

2 Comissão Europeia, Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional

3 É assim que se ganha um lugar nos rodapés da história da capitulação. Dimar mais Verdes igual a 0,49% dos votos, 13ºlugar nas legislativas gregas de janeiro de 2015. Alguém se lembra do Rui Tavares ter dito que o Dimar era " é como se em Portugal a ala esquerda do PS se aliasse aos bloquistas mais abertos"? http://ruitavares.net/textos/ha-uma-nova-esquerda-2/ alguém se lembra de André Freire ter defendido (e defender) a estratégia governista a la Dimar para Portugal indo ao ponto de defender o governo de coligação ND-PASOK-Dimar em 2012? "O exemplo grego prova isso. (...) O problema do Syriza [27% 2012] é que não queria fazer nada com os socialistas do Pasok. (...) Um partido [o Dimar] que tem 6% ou 8% que vai para o governo tem um input pequeno, mas pode garantir aspectos fundamentais, mesmo o veto a algumas políticas mais gravosas". http://www.ionline.pt/…/andre-freire-ha-espaco-apare…/pag/-1. O resultado do governismo a qualquer preço, o Dimar nem em coligação com os verdes contou para nada: Dimar + Verdes= 0,49% dos votos (13ºlugar)

4 O sistema eleitoral grego atribui mais 50 mandatos ao partido mais votado. Um mecanismo pactuado entre PASOK e ND e que se virou contra eles.

5 Filho de uma família de católicos que recusavam a aderir ao anglicanismo oficial, sobrinho neto de Thomas More, o inglês John Donne (1572- 1631) viria a converter-se à Igreja anglicana e a dedicar-se, como poeta e clérigo, à literatura religiosa e à política.

Sobre o/a autor(a)

Investigador. Mestre em Relações Internacionais. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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