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Europa Kamikaze

O grande problema da União Europeia é que ninguém parece querer defendê-la.

Veja-se o referendo sobre o Brexit: a esquerda trabalhista entrou tarde e sem ânimo da campanha e percebe-se bem porquê. A Europa significa austeridade, assimetrias territoriais, desigualdades sociais e processos opacos de decisão. Sem justiça e sem democracia, o que se pode oferecer aos povos?

A resposta tem sido esquecer os povos e alimentar os privilégios. Esta parece ser a União rápida a resgatar bancos, a cortar salários e rendimentos do trabalho, a aumentar impostos, a privatizar e a desregulamentar. Veja-se a aproximação feita a Cameron, com a redução dos apoios sociais aos imigrantes. Passo a passo, a extrema-direita nacionalista e xenófoba vê a sua agenda a cumprir-se, com a obsessão securitária a crescer, o Estado de exceção a tornar-se regra e a fobia do outro a disseminar-se, numa cultura de precariedade e incerteza. Retraem-se os serviços públicos, sentem-se as pessoas abandonadas e crescem antigos ódios: na Áustria, na Hungria, na Polónia, em França…

Entretanto, a pulsão vingativa exige sanções aos periféricos e uma austeridade sem fim, mesmo contra as decisões soberanas e democráticas dos governos. Em suma, o capital encontrou, na União Europeia, um instrumento poderoso de produção de submissão e de criação de divisões entre os mais pobres: desempregados contra refugiados; velhos contra novos, precários contra efetivos.

O resultado está à vista. Urge pensar uma alternativa que respeite as populações, proteja os pobres e reestabeleça a dignidade do outro, em toda a sua diferença. Para tal, tudo deverá estar em cima da mesa: da arquitetura da União à magna questão do euro. Sem interditos.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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