O futebol é magia, paixão, sofrimento e alegria. Envolvendo milhões de pessoas em todo o mundo é usado como ferramenta do poder capitalista, mas pode também servir de plataforma para a mudança social. É influenciado pela sociedade que o rodeia, mas também consegue influenciar pela força social que tem.
O Euro 2020 voltou a demonstrar que o futebol, e o desporto em geral, são espelhos vivos que refletem os problemas da nossa sociedade. Os relvados do Euro 2020 foram palco de discussão muito para além dos golos, vitórias e derrotas. Discutiram-se temas geopolíticos, direitos LGBTI+ e racismo.
Tensões Geopolíticas
Ainda o Euro 2020 não se tinha iniciado, já a Rússia criticava a camisola da selecção ucraniana por conter a Crimeia na sua camisola com o slogan “Glória aos Heróis, Glória para a Ucrânia”. A UEFA considerou legítima a camisola ucraniana, pois estava de acordo com a Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas. Já o slogan foi considerado pela UEFA como uma frase política com significado militar e histórico. Perdia a UEFA a hipótese de relembrar que esse mesmo território é alvo de violação do Direito Internacional por parte da Rússia.
No caso da Macedónia do Norte, foi a Grécia a criticar o uso do nome “Federação de Futebol da Macedónia”, omitindo a palavra “Norte”, o que segundo a Grécia violava o acordo de Prespa, assinado para normalizar a relação entre Grécia e Macedónia do Norte. A UEFA rejeitou a contestação da Grécia, alegando que em todas as comunicações oficiais era usado o nome “Macedónia do Norte”.
Direitos LGBTI+
Já em pleno Euro 2020, o governo hungaro de Viktor Orban introduz uma lei anti LGBTI+ que proíbe a “promoção da homossexualidade”, mistura intencionalmente a pedofilia com a homossexualidade e pune manifestações de apoio à comunidade LGBTI+. Neste contexto, a cidade de Berlim, palco do jogo entre a Alemanha e a Hungria, fez um pedido à UEFA para iluminar o estádio com as cores da bandeira LGBTI+. Viktor Orban critica e a UEFA decide ser “neutra”, não autorizando esta iniciativa por ter “conteúdo político”. No seguimento, a própria UEFA manifesta-se como defensora dos direitos LGBTI+ e coloca o seu símbolo com as cores arco-íris nas redes sociais numa tentativa incongruente de compensar a decisão anterior. O argumento da neutralidade serviu tanto à UEFA, como ao Governo português, para se colocarem do lado errado da história, o do governo de Órban.
Do lado certo esteve a seleção alemã por via do seu capitão Manuel Neuer que envergou a braçadeira de capitão com as cores arco-íris, e Georginio Wijnaldum, capitão da seleção holandesa, que tomou a mesma atitude de apoio à comunidade LGBTI+ com a frase “One Love” na braçadeira.
Racismo
Em cada início de jogo do Euro 2020, não raras vezes a discussão era se as equipas tinham colocado o joelho no chão, dando continuidade à manifestação antirracista iniciada nos EUA de apoio ao movimento Black Lives Matter. Quando Portugal defrontou a Bélgica, já tinha jogado três jogos e em nenhum deles os jogadores se haviam ajoelhado. Com a Bélgica, Portugal é confrontado com este gesto da seleção belga e por via da iniciativa imediata de Renato Sanches, toda a seleção ajoelha. A seleção portuguesa entrava na política. O Chega, após a derrota portuguesa, criticou o gesto, desqualificando a seleção como não merecedores de defender o país por ajoelhar por outro motivo que não a pátria. Aproveitam a insatisfação de milhões de pessoas com o resultado de um jogo de futebol para tentar capitalizar ideias racistas e manipular um gesto antirracista como bode expiatório para o insucesso desportivo.
Neste combate anticapitalista, é possível tornar este desporto de massas numa ferramenta de mudança social antifascista, antirracista, feminista e ecologista
Na Premier League, em Inglaterra, a liga de futebol mais mediática do planeta, após o assassinato de George Floyd, todos os jogos da liga inglesa iniciaram-se com um prévio ajoelhar coletivo com punhos no ar. À medida que o tempo foi passando começaram a surgir contestações de adeptos. Uns defenderam, outros atacaram. Uns acham que o futebol não é espaço para política, outros querem que seja um espaço para política. Marcus Rashford, jogador inglês do Manchester United e da seleção inglesa, foi das vozes que mais defendeu este gesto e que mais se tem destacado no Reino Unido por causas sociais.
O mesmo Marcus Rashford é um dos 3 jogadores negros que falhou as grandes penalidades decisivas que deram a vitória do EURO à Itália e conduziram a seleção inglesa à derrota. Uma torrente racista inundou as redes sociais. As forças viscerais machistas, homofóbicas e racistas que o futebol faz despertar e que estão escondidas numa normalidade quotidiana encapotada vêm ao de cima e demonstram a importância de gestos como o dos jogadores que se ajoelham. Leem-se comentários nas redes sociais a dizer que “não se deve escolher jogadores negros para os penalties, não têm cabeça”.
É possível fazer diferente
Estes episódios demonstram bem a importância do futebol como uma arena de disputa política. Menosprezar intelectualmente o futebol é entregar de bandeja uma plataforma de disputa mediática às forças conservadoras e reacionárias. Este espaço deve ser disputado, incluindo o próprio modelo capitalista que subjuga um jogo de classes populares aos grandes interesses económicos. O futebol enquanto espaço de negócio de milhões deve ele próprio ser alterado profundamente e devolvido às suas origens populares. Neste combate anticapitalista, é possível tornar este desporto de massas numa ferramenta de mudança social antifascista, antirracista, feminista e ecologista. O jogador Rashford, as jogadoras brasileiras Marta e Formiga, o clube St. Pauli da Alemanha e os exemplos dados Manuel Neuer e Georginio Wijnaldum mostram que há já quem queira fazer diferente.