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Éticas, responsabilidades e expectativas

É normal esperarem-se maiores deveres de integridade, responsabilidade e ética em altos responsáveis do que num trabalhador base.

Há poucos anos, quando vieram a público as jogadas e patifarias cometidas nos casos BPN e Banco Privado, vimos os teólogos liberais do costume a encontrar criativas explicações para o sucedido. Mas recordo-me bem de alguma velha guarda, como João César das Neves, vir a público clamar pela necessidade de ética nos mercados. Ou seja, em vez de regulação, em vez de maior fiscalização, seria a componente ética que teria falhado em alguns banqueiros. E tal raciocínio continua a ser prosseguido por muitos comentadores liberais do mainstream na análise de casos como o BES.

Curiosamente, com as recentes suspeitas de crimes nos casos IRN/SEF e, mais recentemente, no caso de Sócrates, por momentos segui um raciocínio semelhante. Ou seja, clamar pela ética (ou falta dela) de quem trabalha ou exerce cargos no sector público. A considerar que quem exerce um cargo público ou trabalha para o sector público tem um dever muito mais explícito de contribuir para o bem comum. Uma vez que a sua missão é assumidamente de contribuir para o interesse público, seria expectável um sentido ético adicional.

Como é evidente, sendo a natureza humana igual em trabalhadores do público e do privado, muito estranho seria que esta seja fosse uma variável determinante para se aferir a ética no trabalho desenvolvido.

Já o mesmo não se pode dizer quando comparamos a graduação de quem exerce determinadas funções. Ou seja, é normal esperarem-se maiores deveres de integridade, responsabilidade e ética em altos responsáveis (do sector público ou privado) do que num trabalhador base. E assim deve acontecer precisamente porque quem desempenha funções de liderança, com correspondente responsabilidade e remuneração, deveria ser menos permeável a interesses pessoais, agendas próprias e jogos “criativos”.

Aí sim, a realidade parece mostrar-nos que o que seria expectável acaba por não se verificar. E as suspeitas que têm vindo a público parecem demonstrar isso mesmo. Parece que mais facilmente apanhamos um alto responsável público a cometer uma falcatrua do que um contínuo de uma escola. Parece que mais facilmente apanhamos um político a contornar a lei do que o cidadão que nele votou.

Quando assim acontece, ou pelo menos assim parece acontecer, escusado será dizer que algo de muito mau se passa. A confiança nas instituições desvanece-se, a crença num futuro melhor esfumaça-se e a vontade de mudança pode assumir contornos menos saudáveis. O presente clima que se vive em Portugal é bastante negro a este respeito.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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