Estudantes hoje, trabalhadores precários amanhã

porMicaela Gomes

22 de maio 2026 - 21:12
PARTILHAR

A greve geral ganha importância para os estudantes. Mais do que uma paralisação laboral, representa uma resposta coletiva de quem recusa aceitar a precariedade, a desigualdade social e a normalização da insegurança económica.

Nos últimos anos, tornou-se impossível ignorar o agravamento das condições de vida em Portugal. O custo da habitação dispara, os preços da alimentação e dos transportes aumentam constantemente e os bens essenciais tornam-se cada vez menos acessíveis. No entanto, os salários continuam estagnados e a precariedade alastra, sobretudo entre os mais jovens. Para uma geração inteira, emancipar-se deixou de ser uma etapa natural da vida adulta para passar a ser um privilégio cada vez mais distante.

Ao mesmo tempo, assistimos à degradação progressiva dos serviços públicos. A falta de investimento na saúde, na educação e no ensino superior reflete um desinteresse crescente pelos problemas concretos da população. Entre os grupos mais afetados estão os estudantes, confrontados com propinas elevadas, rendas incomportáveis, escassez de alojamento estudantil público e a necessidade de trabalhar para conseguir continuar a estudar. Esta realidade tem consequências, não apenas no aproveitamento académico, mas também na saúde física e mental de milhares de jovens.

Assim, a greve geral ganha importância para os estudantes. Mais do que uma paralisação laboral, representa uma resposta coletiva de quem recusa aceitar a precariedade, a desigualdade social e a normalização da insegurança económica. A luta dos trabalhadores é também uma luta pelo futuro da juventude e pelo direito a uma vida digna e estável.

Estudantes e trabalhadores não pertencem a realidades separadas. Hoje, milhares de estudantes conciliam os estudos com empregos precários, mal pagos e incompatíveis com a vida académica. Muitos acabam por desistir do ensino superior porque simplesmente não conseguem suportar os custos de continuar a estudar. E, pouco a pouco, instala-se uma lógica perigosa: a de que salários baixos e dificuldades económicas são inevitáveis e devem ser aceites como norma.

Os estudantes de hoje serão os trabalhadores de amanhã. Por isso, os ataques aos direitos laborais e aos serviços públicos representam também um ataque direto ao futuro desta geração. Não pode existir ensino superior de qualidade sem investimento social, nem pode haver perspetiva de futuro para os jovens quando lhes é oferecido um mercado de trabalho assente na precariedade.

O novo pacote laboral surge como mais um passo no enfraquecimento dos direitos dos trabalhadores. Ao facilitar vínculos precários, aumentar a instabilidade no emprego e reduzir mecanismos de proteção laboral, estas medidas afetam particularmente os jovens que estão agora a entrar no mercado de trabalho. Contratos temporários, estágios mal pagos e ausência de garantias continuam a dificultar a construção de uma vida autónoma e estável, adiando projetos de vida.

Trabalhadores e estudantes partilham, afinal, os efeitos das mesmas políticas. É precisamente por isso que a solidariedade entre quem estuda e quem trabalha se torna essencial. Só através da organização coletiva será possível enfrentar a precariedade, defender direitos e construir um futuro mais justo. Perante esta realidade, a participação na greve geral assume um significado que ultrapassa o plano laboral. É também uma afirmação de que a juventude recusa aceitar um futuro marcado pela exploração e pela perda de direitos.

Micaela Gomes
Sobre o/a autor(a)

Micaela Gomes

Investigadora. Mestre em Engenharia Têxtil e doutoranda na Universidade do Minho. Ativista interseccional
Termos relacionados: