Para quem tivesse dúvidas, Jean-Claude Juncker, presidente do euro-grupo, dissipou-as: de nada interessa se os órgãos de soberania portugueses foram consultados, se a decisão tem ou não legitimidade democrática: Portugal comprometeu-se, pela palavra de Sócrates, com o PEC IV. É assim que funcionam os processos de decisão nas instâncias europeias…
Para José Sócrates trata-se de uma «vitória». Despedimentos mais baratos: vitória. Corte no subsídio de desemprego: vitória. Corte nas pensões: vitória. Diminuição na comparticipação de medicamentos: vitória. Despedimentos mais baratos, pagos através de um fundo financiado pelo próprio esforço do trabalhador: vitória. Aumento da carga fiscal para os assalariados: vitória. Em suma, a vitória de Sócrates é a derrota de todos nós, a derrota de um país, a derrota, enfim, dos mais desfavorecidos.
Tudo em nome de um lema: o FMI não entra. Mas já entrou: o mesmo Juncker afirma preto no branco que o fundo de estabilização europeu requer a aprovação técnica e financeira daquela organização. Uma nuvem de mentiras, pois, da parte do Governo para fazer esquecer que o desemprego vai subir, a inflação também e o país entrou numa recessão cujo fim se desconhece com a continuação destas políticas.
Mas a recessão não é inevitável: taxando as transacções financeiras e as grandes fortunas, obrigando a pagar impostos “decentes”, renegociando as parcerias público-privadas, limitando os desvarios salariais dos gestores, renegociando, em simultâneo, as desastrosas metas do défice e o próprio pagamento da dívida e seria possível investir em sectores estratégicos (reabilitação urbana, clusters exportadores, inovação e pesquisa), redistribuindo riqueza e aumentando os apoios sociais.
Ou isto ou a “grande coligação” de Passos Coelho: PSD, PS e CDS, rumo ao abismo.