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Estaremos nós a navegar à vista?

Esta forma de navegar [dos marinheiros portugueses no século XV], sem arriscar e sem grande ciência, chamou-se navegar à vista. E parece ser isso que se passa com a Figueira da Foz.

Recuando no tempo, para o século XV, altura em que os nossos marinheiros se fizeram ao mar em busca de novas terras, faziam-no avançando para sul, avistando sempre terra do lado de bombordo. Esta forma de navegar, sem arriscar e sem grande ciência, chamou-se navegar à vista. E parece ser isso que se passa com a Figueira da Foz.

Terra de pescadores e de amantes do mar, tem tradição da faina, com porto de pesca e comercial.

Para proteção das pessoas e necessidade de navegabilidade, em particular para ultrapassar os desafios que a barra da Figueira representava, achou-se por bem prolongar o molho norte em cerca de 400 metros, obra essa concretizada no ano de 2011.

Estaria tudo bem se esta fosse a solução perfeita. Não foi. Bem que os pescadores, homens com conhecimento empírico, alertaram… mas palavras levou-as o vento e as marés da Figueira, e a obra seguiu em frente.

Se o objetivo principal era proteger as vidas humanas, não se pode celebrar esse feito; que o digam os familiares das 11 vítimas, pescadores, que desde a conclusão daquela obra, perderam a vida à entrada da barra do porto da Figueira da Foz.

Gastaram-se mais de 15 milhões de euros naquela obra e, tudo o que continuamos a ter, é uma armadilha mortal para os pescadores.

A somar a essa armadilha, somam-se os problemas ecológicos provocados por esse prolongamento: por um lado, houve a deposição de areias na praia da Claridade até perder de vista (tem hoje uma extensão de cerca de 110 hectares), por outro, o quase desaparecimento das praias na margem sul.

O movimento de cidadãos SOS Cabedelo, preocupado com o estado de erosão costeira, com mais de uma década de intervenção cívica, conseguiu ver aprovado em 2017, uma recomendação do Parlamento ao Governo, de promover a execução de um estudo económico para a construção de um “Bypass”, uma forma mecânica de transposição de areias, da margem norte para a margem sul.

A elaboração desse estudo tem um custo de 300 mil euros e visa a comparação dessa solução face a outras, como por exemplo, a dragagem.

Há poucos meses, o governo anunciou a celebração de um protocolo com a autarquia da Figueira da Foz, para realização de dragagens de areia, cerca de 3 milhões de metros cúbicos, que estão depositados no canal e na entrada da barra, para depois serem depositadas nas praias a Sul. Esta obra já está anunciada para começar em 2020 e terá um custo de 19 milhões de euros.

Ou seja: ainda sem a realização de um estudo, já que só este ano foi lançado a concurso e não se vislumbra um prazo para a sua concretização, vai-se investir 19 milhões de euros sem saber se essa é a melhor solução; a solução que, de uma única assentada, resolve a questão da erosão da costa, a acumulação de areias na praia entre a Figueira e Buarcos e a navegabilidade do porto.

Mais, a questão das dragagens vai ser continuo, é “um trabalho para a vida”.

Gastou-se 11 milhões no prolongamento do molho que apenas agudizou um problema ecológico, de segurança e navegabilidade; vão-se gastar mais 19 milhões em dragagens que não se sabe que impacto terá… e quanto ao estudo? Não seria preferível realizar o mesmo e só depois tomar uma decisão, cientificamente apoiada?

Será esta a melhor forma de aplicar e usar os dinheiros públicos?

Se isto não é navegar à vista, sem seguir um qualquer plano, não sei o que será… talvez “dar um tiro nos pés” ou “colocar o carro na frente dos bois”…

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora da Concelhia do Bloco de Esquerda da Figueira da Foz
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