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Estamos mesmo de consciência tranquila?

No fim-de-semana de 18 de julho, um incêndio afetou um canil ilegal que albergava centenas de animais, na serra da Agrela, em Santo Tirso. É incompreensível que Presidente da Câmara, vereador e veterinário municipal nada tenham feito para evitar a morte e sofrimento destes animais.

No fim-de-semana de 18 de julho, um incêndio afetou um canil ilegal que albergava centenas de animais, na serra da Agrela, em Santo Tirso. Muitos desses animais perderam a vida e muitos outros ficaram feridos. As consequências deste incêndio são revoltantes, e são-no ainda mais pela possibilidade que tinham de serem evitadas.

O Presidente da Câmara de Santo Tirso, Alberto Costa, foi ouvido na Assembleia da República sobre esta tragédia. Afirmou, para todo o país, dormir de consciência tranquila desde o incêndio. Não é possível ouvir estas palavras sem qualquer tristeza e até revolta. Sendo o Presidente da Câmara representante máximo da proteção civil no concelho, a ele competia ter ordenado a evacuação dos animais em perigo. Não o fez na noite do incêndio nem depois, quando extinto, obrigando os animais sobreviventes a continuarem em terra queimada ao lado dos corpos dos seus companheiros. O executivo falhou a estes animais, aos voluntários, que heroicamente se dirigiram ao local, e a todos os Tirsenses, que veem o bem-estar animal como um valor imperativo na cidade que vivem. É incompreensível que o Presidente da Câmara, vereador e veterinário municipal nada tenham feito, nada, para evitar a morte e sofrimento destes animais.

O estado dos animais sobreviventes revelaram ainda os maus-tratos que sofreram durante o seu período no canil ilegal “Cantinho das quatro patas”. Denunciado inúmeras vezes, pela população e partidos políticos, nunca foi fechado. Em 2018, o Ministério Público arquivou o processo feito a este canil considerando "não haver crueldade em manter animais num espaço sujo, com lixo, dejetos e mau cheiro". Tendo o executivo lido este despacho – como é da sua competência – sem tomar quaisquer medidas significa que concordou com este argumento, totalmente incompreensível em pleno século XXI. O vereador do bem-estar animal, José Pedro Machado, viu este pelouro ser-lhe retirado pelo Presidente no seguimento do incêndio. Foi-lhe, assim, retirada a confiança política e assumida a sua incapacidade de responder ao bem-estar animal. Torna-se, então, incompreensível que o mesmo continue a exercer o seu cargo na Câmara de Santo Tirso. Alberto Costa, disse também na Assembleia da República, só ter tomado conhecimento “há poucos dias” que a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária quis fechar este abrigo ilegal em 2012. Isto apenas poderá significar uma de duas possibilidades: ou Alberto Costa não está a dizer a verdade ou não tem qualquer competência para dirigir a Câmara Municipal.

Felizmente, milhares de pessoas não ficaram indiferentes a esta tragédia e à falta de ação política no bem-estar animal e manifestaram-se em frente à Câmara, numa vigília nunca antes vista no nosso concelho. Juntos, pedimos responsabilidade pela tragédia do passado 18 de julho e pela morte de mais de uma centena de animais. Manifestamo-nos pela alarvidade que é colocar a propriedade privada à frente da vida de um animal. Indignámo-nos também pela falta de respostas públicas ao bem-estar animal e pela falta de vontade política de os tratarmos com o respeito que merecem.

Não conseguimos salvar todos os animais em Santo Tirso, mas esperamos que estas mortes não tenham sido em vão. Esperamos que, finalmente, o nosso concelho eleja a proteção dos animais como prioridade, com financiamento público e regras claras.

Artigo publicado originalmente no jornal “Entre Margens”.

Sobre o/a autor(a)

Bioquímica e investigadora em ciências da saúde
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