Está aqui

Está na altura de sairmos para a rua

Porque somos muitos e temos razão, devemos reagir, juntar-nos e travar este tsunami social em que seremos engolidos como peixinho miúdo pelos tubarões dos mercados.

Assistimos todos, desde há cerca de dois anos e meio, a uma escalada da chamada crise financeira, primeiro nos Estados Unidos, depois na Europa, e imediatamente a seguir em Portugal, nos nossos bolsos. A pobreza e as desigualdades sociais, que já eram um problema endémico, tornam-se agora mais agudas do que nunca, e tiranizam o nosso país quotidianamente, ao som de um fado que se arrasta, mas que não é inevitável e pode ser interrompido.

A indexação da economia real ao sistema especulativo, promovido por bancos e agências de cotação, com a conivência dos estados, instalou definitivamente o neoliberalismo como governo mundial. A China, com a sua mão-de-obra barata, tira partido da situação, aumenta a produção e exporta cada vez mais, enquanto a economia europeia, nomeadamente a da zona sul, decresce a olhos vistos, com a bênção da Senhora Merkel e do FMI. A verdade tem que ser dita, e aqui falar verdade é dizer que a União Europeia não se tem mostrado capaz de responder com políticas que assumam uma igualdade económica entre os diferentes estados que a integram.

Os baixos salários mantêm-se por isso cada vez mais baixos - em Portugal sempre o foram - e com eles vai crescendo a contratação à jorna, avulsa, fora de qualquer sistema de protecção social, através de empresas de intermediação de mão-de-obra jovem altamente qualificada, que fica subjugada a uma caixa de supermercado, depois de mais de quinze ou vinte anos de aprendizagem escolar. São estas as novas oportunidades que nos trazem.

Os apoios do estado ao desemprego que este tipo de economia de casino condiciona, diminuem em catadupa, os impostos sobre o consumo e os rendimentos do trabalho aumentam, mas a banca inteira continua imune ao pagamento de impostos sobre os seus lucros e transacções financeiras.

A geração de jovens precários vive parcial ou totalmente apoiada nos ordenados dos seus pais. São filhos com vinte, trinta e quarenta anos, que ainda não podem emancipar-se e ter casa própria, pois se saem, afogam-se em dívidas, dado que os seus rendimentos não chegam para pagar as contas.

Os pais, são os que assistiram à criação do Estado Social, apoiado no seu trabalho e nos seus impostos, o que lhes permitiu viver num país com serviços públicos que cobrissem todo o território, de acordo com as necessidades sociais básicas e universais.

Mas com a alienação de empresas públicas estratégicas e a má condução dos destinos do país em matéria económica, os sucessivos governos que estiveram, e estão, até hoje no poder, descapitalizaram o país. Fizeram-no para alimentar as suas clientelas, e agora, ao anunciarem a hora da morte do Estado Social, enfraquecem os serviços públicos para de novo os entregaram a privados. Ora, nestas circunstâncias, só esses empresários e accionistas, ficam a ganhar. Primeiro porque compram barato um monopólio ou sector estratégico da economia, segundo, porque de seguida reformulam os custos de operação a seu favor e, com rendas do estado, os inserem na nossa folha de impostos. Por isso trabalhamos cada vez mais, em piores condições, e temos cada vez menos salário e direitos sociais.

A esta hora vemos já Portugal a chocar contra um muro. A partir daqui não há nada: nem trabalho garantido, nem salário condigno, nem protecção social, nem serviços públicos gratuitos e universais, nem reformas num futuro não tão longínquo.

Somos por isso uma geração sem esperança, que tem de encontrar dentro de si a força para colectivamente mudar este estado de coisas. Temos apenas duas armas: o voto e o protesto nas ruas. Convém que saibamos interpretar o mundo em que estamos, mas isso não adianta nada, por si só. Porque somos muitos e temos razão, devemos reagir, juntar-nos e travar este tsunami social em que seremos engolidos como peixinho miúdo pelos tubarões dos mercados.

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Produtora cultural.
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